
O que aprendi habitando os meus extremos
Conheço por dentro o que é viver períodos em que tudo parece possível, como se a energia não tivesse fim e a vida respondesse a cada decisão. Havia momentos de grande realização, criatividade e impulso. Eu avançava, produzia, criava, me movia com intensidade. Os resultados vinham, mas o custo era alto. Uma desorganização constante e uma exaustão que, cedo ou tarde, me deixavam sem chão.
Depois vinham os outros momentos. O cansaço profundo, a tristeza, o recolhimento, o isolamento social. Não sei dizer se havia tédio ali. Talvez não houvesse espaço suficiente para percebê-lo. O que existia era uma alternância difícil de sustentar, que organizava a vida em picos e quedas, sem continuidade possível.
Também conheço o outro extremo. Já fui aquela que recuava. A que tentava controlar a vida pela paralisação, com medo de errar, de ser julgada ou de confirmar a sensação persistente de não ser boa o bastante para nada, por mais que estudasse, aprendesse ou me dedicasse. Eu economizava vida para não perder nada e acabava não colhendo nada.
Ter atravessado esses dois lugares me deu uma compreensão que não veio dos livros. Hoje, quando recebo conselhos de pessoas impulsivas que me acham parada demais, eu sorrio em silêncio. Eu sei exatamente como a mente delas funciona. Conheço o vício na adrenalina da conquista, a confusão entre velocidade e avanço real, a ilusão de que estar sempre fazendo algo é sinal de vitalidade. Muitas vezes, esse fazer desgovernado é apenas uma maneira de não precisar encarar o vazio de estar consigo mesma.
Vivemos em uma sociedade que valoriza o excesso de ação, mesmo quando essa ação não se sustenta. A pressa e a produtividade exaustiva recebem aplausos imediatos, enquanto a pausa, o preparo e a construção silenciosa são lidos como fraqueza ou estagnação. Mas o corpo não se deixa enganar por muito tempo. O conhecimento de si ensina, mais cedo ou mais tarde, que o reconhecimento externo não paga a conta do desgaste interno.
Também encontrei pessoas mais estáticas, que se impressionam com tudo o que já realizei ou com a coragem de ter abandonado tantos caminhos. Reconheço nelas algo que também já foi meu, o medo de se expor, a cautela que protege mas também paralisa. Mas hoje consigo enxergar algo que antes eu ignorava. A importância do preparo, do estudo aprofundado, do tempo de maturação e da segurança. Aprendi a respeitar a paciência e a constância desses perfis, virtudes que o meu lado impulsivo desprezava.
Habitar esses dois extremos me deu algo que não tem nome fácil, mas que reconheço em cada escolha que faço hoje. A compreensão de que a vida que eu desejo não mora nos extremos.
Aprendi a me centrar e sentir de onde vem o que faço, se vem de mim ou da necessidade de obter afeto de outras pessoas. E aprendi também a me manter equilibrada mesmo quando esse afeto não vem. Quando vem de dentro, é mais fácil me manter equilibrada com minhas escolhas.
O tédio que tanto tememos quase sempre surge quando estamos vivendo uma vida que não é nossa, seguindo scripts que nunca escolhemos de verdade. Quando paramos de segui-los, o tédio muda de natureza. Muitas vezes, é apenas a paz tentando chegar.