VIDA INTERIOR

Tédio não é vazio. É a primeira forma de paz.

Um texto sobre repouso, tédio e a possibilidade de estar em paz

Por muito tempo me disseram que eu era preguiçosa. Não porque eu não fizesse as coisas. Eu fazia. Mas porque havia em mim uma disposição estranha para ficar, uma rebeldia teimosa em não fazer coisas que não faziam sentido pra mim, e uma recusa silenciosa em entrar na pressa e na ansiedade que todo mundo ao meu redor parecia aceitar como parte normal da vida.

Enquanto outras crianças precisavam ser entretidas, eu conseguia passar horas em estados que os adultos chamariam de improdutivos. Eu me deitava no chão e observava o movimento lento das nuvens. Ficava olhando para aquelas pequenas bolinhas brancas e quase transparentes que piscam no céu, pontos que aparecem e desaparecem, e imaginava que eram almas nascendo e morrendo a cada instante. Não havia drama nos meus momentos de isolamento. Era apenas um ritmo acontecendo.

Eu tomava banho de sol até a pele aquecer e começar a suar, sem pressa. Ficava em silêncio no porão escuro da casa, sentindo o gelado da terra no corpo, observando as aranhas tecendo suas teias sem testemunhas. E havia também os banhos.

Eu passava horas deitada na banheira, simplesmente sentindo a água sustentar o meu corpo, relaxar os músculos, apagar a noção do tempo. Minha avó vinha e voltava em silêncio, trazendo mais um balde de água quente com ervas cheirosas. Ela me olhava feliz, com um tipo de alegria tranquila, como quem reconhece algo que não precisa ser explicado. Não havia pressa para terminar, nem tentativa de me tirar dali. Apenas o cuidado simples de prolongar aquele estado de bem-estar.

Nada daquilo era extraordinário. Nada gerava aplauso. Nada rendia.

E ainda assim, havia prazer.

Sempre gostei de olhar para a natureza dessa forma, como se o meu olhar pudesse dizer em silêncio: eu te vejo, eu sou testemunha.

Houve um período da minha vida em que fui o oposto disso tudo. Tornei-me extremamente produtiva. Tão produtiva que comecei a aparecer na televisão, em revistas e jornais. Passei a ser reconhecida na rua. Recebia cartas, presentes, elogios. Pessoas que nunca haviam me respeitado quando eu não fazia nada passaram a me tratar bem. Até dentro da família o olhar mudou.

Foi ali que entendi, com uma clareza quase cruel, o funcionamento do jogo: fazer para ser, produzir para merecer, aparecer para ser amada.

Entrei nesse ritmo com dedicação. E ele respondeu. Mas o custo foi alto. O corpo começou a cobrar. A saúde foi se esgotando aos poucos, como quem paga uma conta silenciosa. Levei anos me resgatando dessa necessidade quase obsessiva de ser útil, de causar boa impressão, de sustentar um valor que só existia enquanto eu rendia.

Crescemos ouvindo que quem para fica para trás. Que quem não se ocupa o tempo todo está desperdiçando a vida. E, pouco a pouco, vamos desaprendendo a simplesmente habitar o momento sem transformá-lo em tarefa.

Ao longo da vida, eu me recusei a mudar nesse ponto essencial. E, nas poucas vezes em que tentei organizar uma vida voltada demais para o mundo exterior, para a produção constante, para ser aprovada e reconhecida, eu adoeci. Foi assim que entendi algo simples e definitivo: abrir mão do meu prazer de existir não valia o sacrifício.

Hoje sei que o tédio que tanto tememos não nasce da falta de estímulo. Ele nasce do encontro com um corpo que não foi sustentado para repousar. Basta que as obrigações terminem para que uma inquietação apareça. A vontade de pegar o celular. De criar uma demanda artificial. De preencher o espaço com qualquer coisa que impeça o silêncio de se instalar.

Reconhecer que se está entediada já é, em si, um gesto raro. A maioria das pessoas foge do tédio antes de percebê-lo, preenchendo cada brecha com estímulo, com movimento, com qualquer coisa que impeça o encontro consigo mesma. Quem consegue ficar parada o suficiente para sentir o tédio de verdade já está, sem perceber, tomando conta de si mesma de um jeito que nem sempre é compreendido, e não raras vezes é criticado.

Chamamos isso de produtividade. Mas muitas vezes é só incapacidade de estar em paz.

Quando o corpo não sabe repousar, a paz parece ameaça. O tédio vira sintoma. Mas, se permanecemos ali sem fugir, algo se reorganiza. A respiração muda. O pensamento desacelera. O corpo deixa de pedir estímulo o tempo todo.

Não surge euforia. Surge estabilidade.

Gosto de fechar os olhos e sentir que tenho valor por estar, todos os dias, comigo mesma. Gosto de não desistir de continuar sendo quem sou, mesmo quando meu valor é questionado por não ter dinheiro ou bens para mostrar.

Não ter gerado bens não me deixou vazia. Eu coleciono outra coisa: histórias. Momentos de vida intensamente vividos por dentro.

Talvez o tédio nunca tenha sido vazio. Talvez ele sempre tenha sido a primeira forma de paz que aprendi a reconhecer.

E a isso chamei de amor. Ou, simplesmente, ser.

Aprender a perder

Abandonei uma banda e uma empresa que faziam sucesso quando percebi que já não era feliz. Estava esgotada, adoecida, e o corpo havia parado de consentir muito antes de eu conseguir nomear o que estava acontecendo. Fui julgada por não ser capaz de ir até o final, como se persistir diante das dificuldades fosse sempre a escolha certa, como se o sucesso que viria depois justificasse permanecer onde algo essencial já havia morrido. Mas o que as pessoas chamavam de desistência era, por dentro, a única escolha honesta que me restava.

Aprendi sobre perda também de outra forma, mais lenta e mais definitiva. Acompanhei meus avós até o fim, atravessei cada fase do envelhecimento deles, vi a vida deles se tornar cada vez mais feita de memórias e de reavaliações silenciosas. E foi nessa proximidade com o que é inevitável que entendi algo que nenhum livro teria me dado: que uma vida vivida para os outros, esquecendo de si no processo, cobra um preço que só aparece no final, quando já não há tempo para recomeçar.

O corpo sabe antes da mente, e quando insistimos em permanecer onde já não há verdade, ele responde da única forma que não consegue ser ignorada: adoecendo.

Durante anos falei sobre presença a partir de um entendimento que ficava só na cabeça. As ideias faziam sentido, mas não produziam mudança real. Foi apenas quando aprendi a sentir as emoções no corpo, sem tentar explicá-las ou controlá-las, que algo começou a se mover. Esse aprendizado veio primeiro através de uma terapia de respiração e, mais tarde, se aprofundou nos rituais de ayahuasca. Permanecer com a emoção até o fim, sem fugir para a explicação, revelou algo que não tem como ser ensinado, só vivido: o corpo sempre foi a bússola mais precisa do que estava acontecendo comigo.

Grande parte do sofrimento não vem do que sentimos, mas da tentativa constante de não sentir. Emoções ignoradas não desaparecem, elas se deslocam, tornam-se tensões que não passam, cansaço que não desaparece depois de dormir, ansiedade que não encontra objeto. A mente segue elaborando, mas o corpo registra tudo. E quando há conflito entre o que pensamos e o que sentimos, o corpo costuma mostrar o que está acontecendo de verdade muito antes de a mente estar disposta a admitir.

Perder, quando o corpo já não aguenta mais, é a única saída que ainda resta, mesmo que ninguém ao redor consiga entender isso como coragem. Perder as aparências que organizavam a vida por fora mas não por dentro. Os ganhos que mantinham tudo funcionando enquanto algo essencial ia se apagando. As pessoas cujo vínculo estava construído sobre um terreno que você decidiu abandonar, não porque sejam más, mas porque pararam de fazer sentido quando você parou de se encaixar onde não cabia.

Perder aquilo que aprendemos a amar, ou a necessitar, é difícil também porque nem sempre sabemos distinguir as duas coisas. É mais fácil se agarrar, tentar permanecer até o fim, mesmo quando, em algum lugar mais fundo, já sabemos o que precisa ser feito.

Há também um cansaço que quase nunca é nomeado nesse processo. O cansaço de precisar se explicar para quem não consegue acompanhar o que você está atravessando. De ser cobrada por performance justamente quando decidiu parar de se justificar. Porque quando o seu não precisava de explicação para ser respeitado, algo que parecia simples se tornava o gesto mais caro de todos. Nem todo mundo acompanha quando você para de se encaixar. E insistir em ser entendida por quem não consegue pode custar mais do que sustentar o próprio silêncio.

Perder é a coisa mais difícil de sustentar porque não acrescenta nada à imagem que construímos de nós mesmas. Apenas retira o que não é essencial, e isso provoca tristeza, desconforto e, às vezes, dor. Mas é também o único movimento que permite que algo mais verdadeiro ocupe o lugar do que ficou vazio.

No fim, o que permanece não é uma ideia melhor sobre si. É um corpo mais habitável. E a capacidade, cada vez mais clara, de dizer não ao que deixou de fazer sentido.

O que aprendi habitando os meus extremos

Conheço por dentro o que é viver períodos em que tudo parece possível, como se a energia não tivesse fim e a vida respondesse a cada decisão. Havia momentos de grande realização, criatividade e impulso. Eu avançava, produzia, criava, me movia com intensidade. Os resultados vinham, mas o custo era alto. Uma desorganização constante e uma exaustão que, cedo ou tarde, me deixavam sem chão.

Depois vinham os outros momentos. O cansaço profundo, a tristeza, o recolhimento, o isolamento social. Não sei dizer se havia tédio ali. Talvez não houvesse espaço suficiente para percebê-lo. O que existia era uma alternância difícil de sustentar, que organizava a vida em picos e quedas, sem continuidade possível.

Também conheço o outro extremo. Já fui aquela que recuava. A que tentava controlar a vida pela paralisação, com medo de errar, de ser julgada ou de confirmar a sensação persistente de não ser boa o bastante para nada, por mais que estudasse, aprendesse ou me dedicasse. Eu economizava vida para não perder nada e acabava não colhendo nada.

Ter atravessado esses dois lugares me deu uma compreensão que não veio dos livros. Hoje, quando recebo conselhos de pessoas impulsivas que me acham parada demais, eu sorrio em silêncio. Eu sei exatamente como a mente delas funciona. Conheço o vício na adrenalina da conquista, a confusão entre velocidade e avanço real, a ilusão de que estar sempre fazendo algo é sinal de vitalidade. Muitas vezes, esse fazer desgovernado é apenas uma maneira de não precisar encarar o vazio de estar consigo mesma.

Vivemos em uma sociedade que valoriza o excesso de ação, mesmo quando essa ação não se sustenta. A pressa e a produtividade exaustiva recebem aplausos imediatos, enquanto a pausa, o preparo e a construção silenciosa são lidos como fraqueza ou estagnação. Mas o corpo não se deixa enganar por muito tempo. O conhecimento de si ensina, mais cedo ou mais tarde, que o reconhecimento externo não paga a conta do desgaste interno.

Também encontrei pessoas mais estáticas, que se impressionam com tudo o que já realizei ou com a coragem de ter abandonado tantos caminhos. Reconheço nelas algo que também já foi meu, o medo de se expor, a cautela que protege mas também paralisa. Mas hoje consigo enxergar algo que antes eu ignorava. A importância do preparo, do estudo aprofundado, do tempo de maturação e da segurança. Aprendi a respeitar a paciência e a constância desses perfis, virtudes que o meu lado impulsivo desprezava.

Habitar esses dois extremos me deu algo que não tem nome fácil, mas que reconheço em cada escolha que faço hoje. A compreensão de que a vida que eu desejo não mora nos extremos.

Aprendi a me centrar e sentir de onde vem o que faço, se vem de mim ou da necessidade de obter afeto de outras pessoas. E aprendi também a me manter equilibrada mesmo quando esse afeto não vem. Quando vem de dentro, é mais fácil me manter equilibrada com minhas escolhas.

O tédio que tanto tememos quase sempre surge quando estamos vivendo uma vida que não é nossa, seguindo scripts que nunca escolhemos de verdade. Quando paramos de segui-los, o tédio muda de natureza. Muitas vezes, é apenas a paz tentando chegar.

Por que você sente um vazio quando realiza um sonho

Viajar para a Índia era um sonho de infância, antigo, desses que se formam muito antes de a gente ter palavras para explicar. Começou quando li Autobiografia de um Iogue ainda criança. Eu não compreendia tudo, mas isso nunca foi um problema. O que me marcou não foram explicações racionais, e sim os relatos de êxtase, de amor, de estados de consciência que pareciam inalcançáveis e ainda assim, falavam forte dentro de mim. Santos e santas que viviam numa entrega tão profunda que transbordava alegria, presença e compaixão. Aquilo me impressionou profundamente. Mas havia algo mais ali, mesmo que eu só fosse perceber depois: esses estados não vinham apenas de esforço. Eles exigiam anos de disciplina, silêncio, treino da mente, do corpo e das emoções, mas também uma entrega que ia além de qualquer controle. Êxtase não era conquista. Era consequência.

Meu sonho, então, não era apenas conhecer um país. Era, quem sabe um dia, estar na presença de alguém assim. Acreditava que esse encontro poderia me transformar, como se algo se reorganizasse por dentro apenas por proximidade. Existia ali uma expectativa silenciosa de que a experiência certa, no lugar certo, com as pessoas certas, produziria em mim algo definitivo.

Anos depois, a viagem aconteceu de forma quase mágica e inesperada. Recebi o convite para participar do Kerala Blog Express, duas semanas cruzando o sul da Índia, num ônibus confortável, com pessoas do mundo todo, atravessando cidades, vilarejos, paisagens intensas, florestas, ilhas, templos, hotéis luxuosos e regiões de extrema simplicidade. Estive lá e vivi aquilo que por muito tempo chamei de sonho.

Ao longo da viagem, foi ficando clara para mim a diferença entre a forma como grande parte do Ocidente se relaciona com o presente e como muitos indianos ainda o habitam. Enquanto ali a vida parecia acontecer no agora, nós, ocidentais, parecíamos estranhamente conectados e desconectados ao mesmo tempo. Conectados às câmeras, à necessidade de registrar. Desconectados do que de fato estava acontecendo.

Passei a viagem inteira com a sensação de que a minha vida tinha virado um filme, e de que a maior parte de nós estava sonhando acordada. As câmeras se ligavam, os sorrisos apareciam, as frases prontas eram ditas. Quando as câmeras desligavam, os rostos fechavam. Surgiam o cansaço, a irritação, a impaciência. Havia pouca presença. Pairava no ar uma ansiedade constante, como se tudo precisasse ser vivido rápido demais para não se perder nada e, justamente por isso, quase nada fosse realmente vivido.

As coisas aconteciam numa velocidade que não permitia experiência. Não havia tempo para sentir, para deixar algo descer, para permitir que aquilo encontrasse um lugar dentro do corpo. O mundo passava rápido demais pelos olhos, e o corpo ficava para trás tentando acompanhar.

Dentro de mim, tudo também acontecia na velocidade da luz. A variedade de sotaques do inglês, as paisagens que mudavam o tempo todo, as pessoas, os templos tão diferentes de tudo o que eu já tinha visto em toda a minha vida, as arquiteturas, os pássaros que nunca tinha visto além dos filmes, os olhares sorridentes do povo indiano, o caos do trânsito, a variedade de sabores e aromas, o luxo convivendo com a simplicidade extrema. Tudo me atravessava ao mesmo tempo. Eu absorvia, mas não conseguia nomear. Me faltava, e ainda me falta, linguagem. À noite, quando dormia, meu cérebro parecia repassar tudo o que eu havia visto durante o dia, como se eu estivesse sempre ligada numa tomada 220.

Antes dessa viagem, outras escolhas da minha vida já tinham sido guiadas por essa mesma lógica. Quando cursei Relações Internacionais, foi porque imaginava uma vida viajando pelo mundo, circulando entre países, culturas, experiências. Tudo fazia sentido dentro da fantasia que eu havia construído, uma vida de movimento constante, descoberta e expansão. Só depois da Índia entendi que aquilo não era um desejo verdadeiro meu, apenas uma ideia bonita sobre como a vida poderia ser.

Foi justamente na Índia, minha primeira viagem internacional, no meio dessa experiência tão desejada, que algo começou a se esvaziar. Não como frustração imediata, mas como percepção. Eu estava vivendo algo que sempre quis e, ainda assim, havia um silêncio estranho por dentro. Um vazio que não combinava com o cenário, com a história, com o privilégio daquela vivência.

Ali, pela primeira vez, algo se organizou com clareza. Eu tinha a viagem, tinha a experiência, tinha a história para contar. Mas vivências, por mais intensas que sejam, não formam por si mesmas o que eu admirava naqueles relatos. Os estados que me tocaram quando criança não vinham do quanto se vive, mas de uma vida inteira dedicada ao conhecimento de si.

Lembro de uma manhã, num pequeno hotel em uma ilha, quando conversei com um professor de ioga muito discreto. Ele me disse, com certa tristeza, que ficava chateado ao ver as pessoas acreditando que yoga era comprar um tapete, vestir uma camiseta indiana, fazer poses e tirar fotos. Disse que yoga não era nada daquilo. Yoga era o que estávamos fazendo ali, naquele momento: estar presentes. Foi como encontrar alguém que estava acordado e sabia disso. Encontrei outras pessoas assim na viagem, mas elas não falavam sobre isso, apenas viviam.

Voltei da Índia transformada, mas não da forma que eu imaginava quando era mais jovem. Não houve iluminação repentina, nem revelação espetacular. Houve algo mais silencioso e, talvez por isso, mais profundo: uma decisão. Meu sonho deixou de ser conhecer o mundo inteiro. Não porque o mundo tenha perdido valor, mas porque compreendi que nenhuma paisagem produz, sozinha, os estados de amor e consciência que eu admirava nos livros. Ainda pretendo conhecer lugares menos visitados, paisagens onde a vida acontece fora do espetáculo, mas isso já não ocupa mais o lugar que ocupava antes.

Talvez seja por isso que tantas pessoas realizem sonhos e, ainda assim, se sintam vazias depois. Não porque sonharam errado, mas porque confundiram sonho com experiência. Os estados que mais nos tocam não se compram, não se visitam, não se acumulam. Eles exigem presença, e alguém capaz de permanecer. Como aquelas pessoas que encontrei na viagem e que não falavam sobre isso, apenas viviam.

Meu sonho passou a ser outro: acordar todos os dias em paz com a vida que tenho, sem me confundir entre ter para ser. Algo especialmente difícil para quem vive no Ocidente, onde o valor de uma pessoa é medido pelo que tem, pelos títulos, pelo sucesso, pelo dinheiro que possui.

Esse foi o vazio que encontrei. E foi ele que me mostrou que o sonho que eu buscava desde a infância não terminava quando a viagem acabava, ele começava quando eu voltava para casa.

É como diz a minha filósofa brasileira favorita, Lúcia Helena Galvão: projeto é do ter. Sonho é do ser.

Crescer muda os encaixes

Por muitos anos encontrei pertencimento circulando em meios de cura e desenvolvimento pessoal. Foram anos de aprendizado real e de trocas genuínas. Mas chegou um dia em que olhei para a minha vida e não consegui reconhecer como todo aquele aprendizado estava de fato me transformando. Eu evoluía em muitas coisas e ainda assim continuava distante da pessoa que queria ser.

Foi quando decidi me afastar. Não de forma dramática, mas definitiva. Me dediquei a uma transformação concreta, de corpo e rotina, e me afastei de quem, até mesmo sem perceber, tentava me fazer mudar de opinião.

Em algum momento, a gente percebe que mudar não é apenas adquirir novos hábitos. É alterar a própria forma de perceber o mundo. Essa mudança quase nunca é barulhenta. Ela aparece na maneira como você interpreta uma situação, no tipo de conversa que passa a fazer sentido, naquilo que começa a parecer excessivo ou insuficiente. E quando a percepção muda, os encaixes também mudam.

Muitos vínculos nascem de afinidades reais entre versões específicas de quem somos. Pessoas se aproximam porque compartilham uma fase, uma dor, um ritmo, às vezes até uma forma parecida de evitar certos enfrentamentos. O problema surge quando uma das partes cresce em outra direção e tenta manter a mesma dinâmica como se nada tivesse mudado.

Nem toda distância significa ruptura. Nem toda permanência significa maturidade. Às vezes insistir em continuar exige silenciar percepções importantes, relativizar desconfortos recorrentes, fingir que ainda se identifica com algo que já não ressoa. Com o tempo, essa dissonância começa a pesar mais do que o medo de se afastar.

Aceitar que a afinidade é dinâmica não é desvalorizar o que foi vivido. É reconhecer que as pessoas evoluem em ritmos diferentes. Algumas caminham lado a lado por muitos anos, atravessando várias versões umas das outras. Outras compartilham apenas um trecho. Isso não transforma a história em erro, apenas delimita o tempo.

Existe uma maturidade discreta em permitir que as relações encontrem sua forma atual, mesmo que essa forma seja menos intensa ou menos frequente. O que antes era central pode se tornar memória respeitosa. O que era cotidiano pode virar eventual. E isso não precisa carregar ressentimento.

Permanecer por medo de perder o vínculo é uma forma sutil de estagnação. Permitir que os encaixes se ajustem ao que você se tornou é uma forma de respeito, por si e pelo outro.