PRESENÇA

Constância não começa na ação

Por muito tempo quis ser uma pessoa que amava academia. Desde criança achava lindo mulheres malhadas, que iam treinar, que andavam de top na rua e mostravam o corpo forte de forma natural, com aquela energia de quem está bem consigo mesma. Sempre me disse que um dia seria uma delas. Sentia admiração genuína mas a distância entre quem eu era e elas era enorme. Eu ia, mas detestava enquanto estava lá. A sensação boa que vinha depois era só o alívio de ter conseguido ir, não prazer de verdade.

A virada não veio de uma decisão racional. Veio de um ritual intenso, aos 43 anos, quando me vi diante de algo que não conseguia mais adiar: mesmo me esforçando muito, eu ainda não gostava de quem eu era. O ritual foi longo e o que cabe trazer aqui é simples. Saí dele com uma clareza que nunca tinha tido antes. Aprendi a separar o que não estava ao meu alcance mudar, e que precisava ser aceito, daquilo que eu escolhia não mudar por falta de determinação. E foi nessa clareza que encarei algo que dizia há anos que teria até os 40: um abdômen malhado. Parecia algo bobo para quem estava ao redor e ninguém me apoiou. Mas era um desejo genuíno, talvez a primeira coisa na minha vida inteira pela qual resolvi lutar só por mim. Uma forma de dizer a mim mesma que o que eu queria importava. Independente do que me acontecesse, seria a primeira coisa da qual eu não desistiria. Estudei, testei, errei. Usei áudios de hipnose e reprogramação mental e alguns realmente funcionaram, não porque fossem mágica, mas porque me ensinaram a pensar de um jeito diferente. E foi aí que tudo começou a se mover.

Não através de metas novas ou de mais disciplina, mas mudando o que eu dizia para mim mesma. Não como afirmação positiva vazia, mas como diálogo interno real, honesto, consistente. Antes, para começar a correr eu precisava do tênis certo, da condição certa, do momento certo. Quando mudei, passei a correr com o tênis furado que era o que eu tinha. Todo dia aumentava um pouco a meta e cheguei a fazer 10 km. E foi assim que, com o passar dos meses, não só passei a amar ir para a academia todos os dias, como segui planos alimentares sem esforço, parei de ficar no celular até tarde para conseguir dormir melhor, parei de esquecer de beber água, passei a estudar por horas sentindo prazer e fui, lentamente, me desconectando de notícias e distrações vazias. Criei o meu próprio universo.

Constância costuma ser associada à repetição de hábitos, à disciplina diária, à rotina organizada. Mas antes de ser uma sequência de ações, ela é a habilidade de sustentar decisões internas mesmo quando o cenário externo não se ajusta imediatamente a elas.

Toda escolha verdadeira altera alguma coisa ao redor. Decidir fortalecer o corpo muda horários e prioridades. Decidir acalmar a mente muda a forma como você reage. Decidir viver com mais presença muda aquilo que você tolera. Essas alterações nem sempre são compreendidas por quem convive com você e nem sempre produzem resultados visíveis de imediato. É nesse intervalo, quando ninguém vê e nada ainda mudou, que a constância de fato acontece.

Quando começamos alguma atividade ou um novo hábito, o impulso inicial costuma ser forte. Há motivação, clareza e até entusiasmo. O desafio começa quando surgem os pequenos desconfortos, as dúvidas silenciosas e a sensação de estar caminhando sozinha em determinadas escolhas. É fácil manter uma decisão quando ela é validada externamente. O difícil é sustentá-la quando ela exige suportar períodos de ajuste, inclusive dentro dos próprios vínculos.

Tive quedas, lesões, me machuquei, adoeci, fiquei sem trabalho, fiquei sem dinheiro. E prossegui. Constância não é rigidez. Não é insistir cegamente em algo que perdeu sentido. É revisar a própria intenção com honestidade e, quando ela ainda é verdadeira, continuar. Crescimento raramente é linear. E não se abandonar no meio do caminho é bem mais difícil do que começar.

É fácil se deixar convencer. É só um docinho, uma tacinha, um brinde, uma bobagem sem importância. E realmente é, quando vem de uma pessoa. O problema é que nunca vem de uma só. Quando o objetivo é claro, são exatamente essas pequenas distrações que precisam ser aprendidas a lidar, uma por uma.

Existe uma diferença importante entre adaptar-se e reduzir-se. Adaptar-se faz parte da convivência humana. Reduzir-se é abrir mão de valores que você reconhece como essenciais apenas para evitar desconforto. Maturidade é saber o que não negocia e o que pode ceder.

Permanecer fiel ao que você decidiu ser não é para ninguém. É só seu.

Quando você observar alguém alcançando um resultado que você também deseja, vale lembrar que ninguém viu os dias em que essa pessoa continuou sem motivo nenhum além de ter decidido. O que as pessoas veem é só o final. O processo não rende aplauso nenhum.

Constância não começa na ação. Começa no que você diz para si mesma quando ninguém está ouvindo.

Tédio não é vazio. É a primeira forma de paz.

Um texto sobre repouso, tédio e a possibilidade de estar em paz

Por muito tempo me disseram que eu era preguiçosa. Não porque eu não fizesse as coisas. Eu fazia. Mas porque havia em mim uma disposição estranha para ficar, uma rebeldia teimosa em não fazer coisas que não faziam sentido pra mim, e uma recusa silenciosa em entrar na pressa e na ansiedade que todo mundo ao meu redor parecia aceitar como parte normal da vida.

Enquanto outras crianças precisavam ser entretidas, eu conseguia passar horas em estados que os adultos chamariam de improdutivos. Eu me deitava no chão e observava o movimento lento das nuvens. Ficava olhando para aquelas pequenas bolinhas brancas e quase transparentes que piscam no céu, pontos que aparecem e desaparecem, e imaginava que eram almas nascendo e morrendo a cada instante. Não havia drama nos meus momentos de isolamento. Era apenas um ritmo acontecendo.

Eu tomava banho de sol até a pele aquecer e começar a suar, sem pressa. Ficava em silêncio no porão escuro da casa, sentindo o gelado da terra no corpo, observando as aranhas tecendo suas teias sem testemunhas. E havia também os banhos.

Eu passava horas deitada na banheira, simplesmente sentindo a água sustentar o meu corpo, relaxar os músculos, apagar a noção do tempo. Minha avó vinha e voltava em silêncio, trazendo mais um balde de água quente com ervas cheirosas. Ela me olhava feliz, com um tipo de alegria tranquila, como quem reconhece algo que não precisa ser explicado. Não havia pressa para terminar, nem tentativa de me tirar dali. Apenas o cuidado simples de prolongar aquele estado de bem-estar.

Nada daquilo era extraordinário. Nada gerava aplauso. Nada rendia.

E ainda assim, havia prazer.

Sempre gostei de olhar para a natureza dessa forma, como se o meu olhar pudesse dizer em silêncio: eu te vejo, eu sou testemunha.

Houve um período da minha vida em que fui o oposto disso tudo. Tornei-me extremamente produtiva. Tão produtiva que comecei a aparecer na televisão, em revistas e jornais. Passei a ser reconhecida na rua. Recebia cartas, presentes, elogios. Pessoas que nunca haviam me respeitado quando eu não fazia nada passaram a me tratar bem. Até dentro da família o olhar mudou.

Foi ali que entendi, com uma clareza quase cruel, o funcionamento do jogo: fazer para ser, produzir para merecer, aparecer para ser amada.

Entrei nesse ritmo com dedicação. E ele respondeu. Mas o custo foi alto. O corpo começou a cobrar. A saúde foi se esgotando aos poucos, como quem paga uma conta silenciosa. Levei anos me resgatando dessa necessidade quase obsessiva de ser útil, de causar boa impressão, de sustentar um valor que só existia enquanto eu rendia.

Crescemos ouvindo que quem para fica para trás. Que quem não se ocupa o tempo todo está desperdiçando a vida. E, pouco a pouco, vamos desaprendendo a simplesmente habitar o momento sem transformá-lo em tarefa.

Ao longo da vida, eu me recusei a mudar nesse ponto essencial. E, nas poucas vezes em que tentei organizar uma vida voltada demais para o mundo exterior, para a produção constante, para ser aprovada e reconhecida, eu adoeci. Foi assim que entendi algo simples e definitivo: abrir mão do meu prazer de existir não valia o sacrifício.

Hoje sei que o tédio que tanto tememos não nasce da falta de estímulo. Ele nasce do encontro com um corpo que não foi sustentado para repousar. Basta que as obrigações terminem para que uma inquietação apareça. A vontade de pegar o celular. De criar uma demanda artificial. De preencher o espaço com qualquer coisa que impeça o silêncio de se instalar.

Reconhecer que se está entediada já é, em si, um gesto raro. A maioria das pessoas foge do tédio antes de percebê-lo, preenchendo cada brecha com estímulo, com movimento, com qualquer coisa que impeça o encontro consigo mesma. Quem consegue ficar parada o suficiente para sentir o tédio de verdade já está, sem perceber, tomando conta de si mesma de um jeito que nem sempre é compreendido, e não raras vezes é criticado.

Chamamos isso de produtividade. Mas muitas vezes é só incapacidade de estar em paz.

Quando o corpo não sabe repousar, a paz parece ameaça. O tédio vira sintoma. Mas, se permanecemos ali sem fugir, algo se reorganiza. A respiração muda. O pensamento desacelera. O corpo deixa de pedir estímulo o tempo todo.

Não surge euforia. Surge estabilidade.

Gosto de fechar os olhos e sentir que tenho valor por estar, todos os dias, comigo mesma. Gosto de não desistir de continuar sendo quem sou, mesmo quando meu valor é questionado por não ter dinheiro ou bens para mostrar.

Não ter gerado bens não me deixou vazia. Eu coleciono outra coisa: histórias. Momentos de vida intensamente vividos por dentro.

Talvez o tédio nunca tenha sido vazio. Talvez ele sempre tenha sido a primeira forma de paz que aprendi a reconhecer.

E a isso chamei de amor. Ou, simplesmente, ser.

Firmeza: a forma mais silenciosa de autoestima

“Se você tentou se adaptar a uma forma e não conseguiu, talvez tenha tido sorte.”
— Clarissa Pinkola Estés

O Patinho Feio foi meu primeiro livro de infância, um presente da minha avó Esperança, cuja capa velha e desgastada conservo até hoje. Na época, eu não saberia explicar por quê, mas a sensação de não caber já estava ali. Entre as crianças, eu me sentia deslocada. Sempre achei mais fácil me relacionar com pessoas mais velhas, especialmente idosas. Gostava da calma delas, do jeito como contavam suas histórias, de ouvir sobre a vida com mais tempo e menos urgência. Ao longo da vida, essa sensação de não pertencimento reapareceu em outros contextos: grupos, trabalhos, relações. A resposta quase sempre foi a mesma: me ajustar.

Anos depois, já adulta, ao ler Mulheres que Correm com os Lobos, algo fez sentido de forma mais profunda. Clarissa Pinkola Estés fala sobre como, ao longo da vida, muitas mulheres aprendem a conter seus impulsos para caber. A serem educadas, razoáveis, recatadas, a não incomodar, a não exagerar, a não ocupar espaço demais. Em troca, buscamos algo muito simples: aprovação. Mas esse esforço constante para caber tem um custo alto. Pouco a pouco, a gente se perde. Não é a diferença que machuca. É a tentativa de anulá-la para ser aceita.

Esse movimento de agradar nem sempre é visível. Nem sempre assume a forma da pessoa boazinha, disponível, que diz sim para tudo. Às vezes, ele também aparece vestido de rebeldia. A máscara muda, mas o mecanismo é o mesmo. Em vez de buscar aprovação sendo adequada, busca-se aprovação sendo intensa, contestadora, diferente, provocadora. Muda o papel, mas a dependência permanece. No fundo, continua existindo a necessidade de ser vista, validada, reconhecida. E, sem perceber, a vida passa a girar em torno do olhar do outro, seja pelo aplauso, pela reação ou pela necessidade de ser útil a alguém. Quando não há plateia, quando não há demanda, quando não há alguém a quem servir ou impressionar, surge o vazio. E junto com ele, a pergunta que foi evitada por muito tempo: quem eu sou quando ninguém está olhando?

Durante muito tempo, autoestima foi vendida como uma sensação: sentir-se confiante, gostar de si, acreditar no próprio valor. Mas existe uma camada mais profunda, e bem menos confortável, da autoestima: a capacidade de se sustentar no mundo. Autoestima real não nasce do que você sente sobre si. Ela nasce da coerência entre o que você promete e o que você entrega. Entre o que você diz e o que você sustenta quando ninguém está te aplaudindo.

Acho importante deixar claro que sustentar-se no mundo não é sobre dinheiro. É possível pagar contas, manter uma vida funcionando e, ainda assim, não ter firmeza nenhuma. Dinheiro permite existir no mundo. Não garante coerência interna. Sustentação, no sentido mais profundo, não é quanto você ganha. É o quanto você consegue se manter íntegra diante das suas escolhas.

É disso que se trata a firmeza. Firmeza não é dureza. É coerência. É parar de resolver pelo outro, de dar desculpas, de justificar o que não se sustenta, de ocupar lugares que não são seus. Firmeza é cumprir o que se promete, mesmo quando isso custa aprovação, mesmo quando gera desconforto, mesmo quando algumas pessoas se afastam. Quando pensamento, palavra e ação se alinham, algo muda. O mundo responde diferente.

Organizar a própria casa interna não significa ter a vida toda resolvida. Ninguém tem. Significa saber o que é essencial para si, reconhecer o que ainda precisa ser ajustado e estar disposta a cuidar disso, sem usar a vida do outro como distração. Quando a própria casa não está minimamente organizada, é comum sair dela para tentar organizar a do outro. Conversar sobre a desordem, resolver, opinar, ajudar. Isso não organiza nenhuma vida. Apenas evita voltar para a própria. E, sem base, a gente se perde facilmente na bagunça alheia.

Existe um preço em parar de se abandonar para sustentar vínculos que já não fazem sentido. Algumas pessoas se frustram, se afastam, dizem que você mudou, sentem-se abandonadas. Isso faz parte. Quando você para de se adaptar, de se explicar, de permanecer onde já não há afinidade, o campo ao redor se reorganiza, e, junto com ele, você também.

Há momentos em que esse movimento produz isolamento. Não como punição, mas como diz Clarissa, como uma dádiva. Um período como um tempo necessário, em que a vida afasta o barulho externo para que a alma possa ser reencontrada. É ali que a persistência é testada, não importa o que aconteça fora. É ali que se aprende a permanecer sem aplauso. É ali que o vínculo deixa de ser com a expectativa do outro e passa a ser com a própria alma.

Autoestima madura não é evitar essas consequências. É atravessá-las sem voltar atrás. Com o tempo, algo muda. Você deixa de ser procurada por necessidade e passa a atrair por afinidade. Não porque endureceu ou ficou fria, mas porque se sustentou.

Autoestima não é conforto constante, nem afirmação vazia. É não se abandonar quando custa. Firmeza é cumprir o que se promete, para si mesma, antes de tudo. É sobre não se trair. O resto é consequência.

Crescer muda os encaixes

Por muitos anos encontrei pertencimento circulando em meios de cura e desenvolvimento pessoal. Foram anos de aprendizado real e de trocas genuínas. Mas chegou um dia em que olhei para a minha vida e não consegui reconhecer como todo aquele aprendizado estava de fato me transformando. Eu evoluía em muitas coisas e ainda assim continuava distante da pessoa que queria ser.

Foi quando decidi me afastar. Não de forma dramática, mas definitiva. Me dediquei a uma transformação concreta, de corpo e rotina, e me afastei de quem, até mesmo sem perceber, tentava me fazer mudar de opinião.

Em algum momento, a gente percebe que mudar não é apenas adquirir novos hábitos. É alterar a própria forma de perceber o mundo. Essa mudança quase nunca é barulhenta. Ela aparece na maneira como você interpreta uma situação, no tipo de conversa que passa a fazer sentido, naquilo que começa a parecer excessivo ou insuficiente. E quando a percepção muda, os encaixes também mudam.

Muitos vínculos nascem de afinidades reais entre versões específicas de quem somos. Pessoas se aproximam porque compartilham uma fase, uma dor, um ritmo, às vezes até uma forma parecida de evitar certos enfrentamentos. O problema surge quando uma das partes cresce em outra direção e tenta manter a mesma dinâmica como se nada tivesse mudado.

Nem toda distância significa ruptura. Nem toda permanência significa maturidade. Às vezes insistir em continuar exige silenciar percepções importantes, relativizar desconfortos recorrentes, fingir que ainda se identifica com algo que já não ressoa. Com o tempo, essa dissonância começa a pesar mais do que o medo de se afastar.

Aceitar que a afinidade é dinâmica não é desvalorizar o que foi vivido. É reconhecer que as pessoas evoluem em ritmos diferentes. Algumas caminham lado a lado por muitos anos, atravessando várias versões umas das outras. Outras compartilham apenas um trecho. Isso não transforma a história em erro, apenas delimita o tempo.

Existe uma maturidade discreta em permitir que as relações encontrem sua forma atual, mesmo que essa forma seja menos intensa ou menos frequente. O que antes era central pode se tornar memória respeitosa. O que era cotidiano pode virar eventual. E isso não precisa carregar ressentimento.

Permanecer por medo de perder o vínculo é uma forma sutil de estagnação. Permitir que os encaixes se ajustem ao que você se tornou é uma forma de respeito, por si e pelo outro.