Helen Negrão

Você não precisa de permissão para criar. Mas vai precisar enfrentar tudo que vai tentar te impedir

Quando eu era criança, eu adorava escrever histórias e desenhar. Não porque alguém me incentivou. Não porque fui elogiada. Pelo contrário: o que eu recebia era correção. Uma observação aqui, um ajuste ali, uma forma sutil e constante de me dizer que o que eu fazia não estava certo. E fui crescendo com uma sensação que levei anos para nomear: a de que eu não sabia fazer as coisas que eu amava.

Mas nunca parei.

Meu quarto era uma bagunça enorme de folhas de papel e cadernos espalhados por todos os cantos. Escritos que eu não mostrava a ninguém. Não porque fossem ruins. Eram meus. E havia algo naquele ato de escrever para ninguém, de criar sem destino, que sustentava alguma coisa em mim que eu não conseguia sustentar de nenhuma outra forma.

Steven Pressfield chama de Resistência a força que aparece sempre que estamos prestes a criar algo verdadeiro. Em A Guerra da Arte, ele descreve essa força como quase viva, inteligente, que sabe exatamente onde te machucar. Ela não aparece quando você está fazendo algo que não importa. Ela aparece precisamente quando você está prestes a ser honesta consigo mesma. E quanto maior a Resistência que você sente em relação a algo, mais esse algo te pertence.

O que ninguém te conta é que a Resistência não vem só de dentro. Ela também aprende a falar com a voz de quem você ama. Com a correção de quem queria te ajudar. Com o silêncio de quem nunca disse que era bom. E quando você cresce ouvindo isso, a Resistência não precisa mais de ninguém para fazer seu trabalho. Você passa a fazê-lo por ela.

Foi somente depois dos meus trinta anos, em terapia, que recebi uma tarefa simples e assustadora: me expressar através de um blog. Fiz. Achando que tudo era bem ruim. Sem saber se alguém ia ler, sem saber se valia alguma coisa. E foi a partir daí que algo começou a se mover. Alguns dos meus escritos foram parar em letras de músicas da banda que tive ao lado de duas amigas. E foi assim que a música entrou, a fotografia, o design, não como carreiras, não como estratégias, mas como ferramentas de expressão. Formas de dizer o que eu precisava dizer com o corpo inteiro, não só com as palavras.

Nunca abandonei a filosofia nem a espiritualidade. Nunca consegui largar a necessidade de refletir sobre o mundo, de buscar sentido nas coisas, de habitar as perguntas sem pressa de encontrar respostas. Isso sempre esteve lá, desde a criança que ficava olhando para as nuvens. Não é uma escolha. É uma constituição minha, algo que não consigo mudar.

E mesmo quando veio um certo sucesso, jamais me senti verdadeiramente confiante em relação ao que gosto de fazer. É sempre uma batalha trazer minhas coisas ao mundo. Sempre. Não importa quantas vezes eu tenha feito isso antes. A Resistência volta. Muda de roupa, muda de argumento, mas volta.

Hoje ela tem um endereço novo: as redes sociais. Que a bem da verdade deixaram de ser sociais e se tornaram comerciais. Onde a comparação não é um efeito colateral, é o produto. E onde criar sem querer vender, expressar sem querer converter, existir sem querer crescer, virou quase um ato subversivo.

Eu não quero transformar tudo o que amo em comércio. E manter essa posição, nos tempos de hoje, também é um ato de resistência. Talvez seja o mais difícil de todos, porque esse não vem de fora com correções e silêncios. Esse vem com métricas, com comparações, com a pergunta constante de por que você não está crescendo mais rápido, monetizando melhor, sendo mais estratégica.

Aprendi que valor não é o que o seu trabalho gera. Valor é o que você carrega antes de qualquer resultado. E criar sem precisar de aprovação não é arrogância. É o único jeito de criar algo verdadeiro. Quando você cria para ser aprovada, você está criando para outra pessoa. Quando você cria para se expressar, está criando para você. E é exatamente aí que o que você faz começa a tocar as outras pessoas de verdade, porque elas reconhecem quando algo foi feito com liberdade e quando foi feito com medo.

Nada daquilo rendeu de imediato. O quarto cheio de cadernos, a banda, o blog que eu achava ruim, a fotografia, o design, a filosofia. Mas era meu. Eu precisava. E sem isso eu viveria pela metade.

A auto expressão sustenta algo que nenhuma aprovação consegue sustentar: a sensação de que você está inteira. De que não deixou nada represado. De que viveu por dentro com a mesma intensidade com que viveu por fora.

Não é fácil. Nunca foi. Mas ficar sem fazer também não dá. E quem já sentiu isso sabe exatamente do que estou falando.

Sua mente obedece. O problema é que você não sabe o que está mandando ela fazer.

Nossa mente automática é como um GPS: ela te leva exatamente para onde você mandou, mesmo que o destino seja errado.

Ela não decide o que é certo ou errado, saudável ou adoecedor, e não tem nenhuma opinião sobre as suas escolhas. O trabalho dela é simples e absoluto: te manter viva e te afastar da dor. E a única forma que ela encontrou de fazer isso foi ouvindo o que você diz a si mesma, inclusive o que você não diz para mais ninguém.

Nossa mente trabalha para garantir que tenhamos uma vida longa identificando o que nos causa dor e nos mantendo longe disso. Se você tomou um choque na tomada, vai manter o dedo longe dela. Se foi mordida por um cachorro aos três anos, pode ter medo de cachorros pelo resto da vida. Mas conheço pessoas que consomem laticínios ou que bebem álcool e que passam mal, têm enxaquecas, problemas gástricos e intestinais, indisposição e cansaço, e continuam porque o diálogo interno delas com aquilo é de amor e prazer, não de dor. E é exatamente isso que explica tudo: sua mente não te afasta do que te faz mal, ela te afasta do que você diz que te faz mal. Se você continua dizendo que ama aquilo, ela vai continuar te aproximando.

Se você vai todos os dias para a academia e fala para si mesma que odeia aquilo, que está te matando, que é um pesadelo, sua mente ouve e faz o que sempre faz: te protege. Vai te dar uma enxaqueca, uma dor de estômago, uma crise de rinite, um cansaço inexplicável, vai criar qualquer manifestação física para te manter longe do que entendeu que te faz mal. Fazemos isso com absolutamente tudo. Dizemos que vamos começar a gravar vídeos, que vamos finalmente publicar nossos textos, criar o negócio que sempre quisemos, mas lá no fundo dizemos para nós mesmas que não vai dar certo, que foi uma péssima ideia, que vai ser terrível, e aí nos perguntamos por que acordamos sem energia, por que adoecemos na véspera, por que sempre encontramos um motivo para adiar.

A mente automática não te julga e não tem opinião sobre o que é certo ou errado. Ela só ouve o que você diz pra si mesma e executa. Não estou falando de pensamento positivo nem de autosugestão. Estou falando de algo que a neurociência já confirmou: padrões repetidos de pensamento reconfiguram o cérebro. Você literalmente se torna o que repete.

Quando falo sobre isso para as pessoas, o que mais escuto é que é ótimo saber disso, mas que elas não conseguem mudar ou que não têm força de vontade, que isso não é para elas, que eu sou um ET por ter mudado tantos hábitos. É óbvio que eu acho muitas coisas gostosas, mas sei que me fazem mal e me roubam o prazer de outras coisas que hoje vejo como muito mais importantes para mim. O que me chama atenção é que a maioria de nós não percebe que são exatamente essas frases que dizemos a nós mesmas que estão construindo quem somos, eu mesma demorei anos para entender isso. Nosso corpo age da forma como pensamos, não por magia ou pensamento positivo, mas porque nossa mente obedece ao que dizemos, e quando você repete por anos que não consegue, ela vai garantir que você continue não conseguindo.

E isso não se limita ao corpo ou aos hábitos. Se você carrega a crença de que as pessoas não gostam de você, sua mente vai trabalhar para confirmar isso também. Vai te fazer interpretar um silêncio como rejeição, um olhar neutro como julgamento, uma ausência como abandono. Se você passou anos ao lado de uma pessoa que te fez acreditar que nunca ia conseguir viver sozinha, você acredita nisso e passa a viver uma vida pela metade, sem saber que decisões tomaria se acreditasse que é uma pessoa inteira. Não porque seja verdade, mas porque sua mente está fazendo o que sempre faz: te protegendo de uma dor que você mesma disse que existia. Ela não verifica se a crença é real. Ela só executa.

Pensa em algo concreto: se você diz para si mesma num restaurante que pizza é a melhor coisa do mundo e que chocolate é tão bom quanto um orgasmo, o que você acha que vai acontecer quando abrir o cardápio? Seu cérebro vai te lembrar que você ama pizza, que você ama chocolate, que é isso que te faz feliz. E aí você decide que vai pedir uma opção mais equilibrada, e seu cérebro vai questionar por que você quer isso, já que não se lembra de nenhuma vez na vida em que você disse amar se sentir leve ou comer legumes. E se você pede a opção mais saudável, come sem prazer, sonha com o que deixou para trás e sente culpa quando comete qualquer deslize.

O jeito diferente não é se proibir. É olhar para o cardápio e pensar que eles têm pizza, mas que o que você gosta mais do que pizza é se sentir bem consigo mesma, acordar leve, saber que está se cuidando, que está se aproximando do corpo que gostaria de ter. Não é sobre nunca mais comer o que você ama, é sobre parar de desejar todos os dias aquilo que você sabe que está te impedindo de ficar bem consigo mesma. Quando você diz à sua mente que escolhe, que prefere, que quer algo porque te faz feliz, ela entende e trabalha a seu favor, porque o que sempre a guiou foi te aproximar do prazer.

Isso vale para tudo. Para quem quer ter um negócio mas só fala mal do trabalho e como gostaria de estar em outro lugar. Para quem quer estudar mas só diz que estudar é cansativo e chato. Para quem quer se expor mas carrega há anos a crença de que nunca mais vai falar em público porque passou por algo constrangedor uma vez e disse a si mesma que jamais repetiria aquilo, e desde então sua mente tem feito seu melhor trabalho te mantendo longe dessa situação. Atualizamos nossos celulares e computadores com frequência, mas raramente atualizamos a forma como pensamos, e às vezes nossa mentalidade está completamente obsoleta enquanto continuamos esperando resultados diferentes com a mesma estrutura mental de décadas atrás.

Foi prestando atenção nisso que tudo começou a mudar para mim. Hoje malhar e cuidar do que como é algo que genuinamente amo, não porque me forcei, mas porque mudei o que dizia sobre isso. Agora estou num processo de aprender a fazer o mesmo com o meu trabalho, porque entender alguma coisa não significa que já se aplica em todas as áreas da vida ao mesmo tempo. A comunicação mais importante que existe é a comunicação consigo mesma, e quando entendi isso, parei de lutar contra a própria mente e comecei a usá-la a meu favor. O único trabalho real que encontrei foi dizer à minha mente o que eu amo, repetir, avaliar se é o que quero mesmo e deixar que ela faça o resto.

Constância não começa na ação

Por muito tempo quis ser uma pessoa que amava academia. Desde criança achava lindo mulheres malhadas, que iam treinar, que andavam de top na rua e mostravam o corpo forte de forma natural, com aquela energia de quem está bem consigo mesma. Sempre me disse que um dia seria uma delas. Sentia admiração genuína mas a distância entre quem eu era e elas era enorme. Eu ia, mas detestava enquanto estava lá. A sensação boa que vinha depois era só o alívio de ter conseguido ir, não prazer de verdade.

A virada não veio de uma decisão racional. Veio de um ritual intenso, aos 43 anos, quando me vi diante de algo que não conseguia mais adiar: mesmo me esforçando muito, eu ainda não gostava de quem eu era. O ritual foi longo e o que cabe trazer aqui é simples. Saí dele com uma clareza que nunca tinha tido antes. Aprendi a separar o que não estava ao meu alcance mudar, e que precisava ser aceito, daquilo que eu escolhia não mudar por falta de determinação. E foi nessa clareza que encarei algo que dizia há anos que teria até os 40: um abdômen malhado. Parecia algo bobo para quem estava ao redor e ninguém me apoiou. Mas era um desejo genuíno, talvez a primeira coisa na minha vida inteira pela qual resolvi lutar só por mim. Uma forma de dizer a mim mesma que o que eu queria importava. Independente do que me acontecesse, seria a primeira coisa da qual eu não desistiria. Estudei, testei, errei. Usei áudios de hipnose e reprogramação mental e alguns realmente funcionaram, não porque fossem mágica, mas porque me ensinaram a pensar de um jeito diferente. E foi aí que tudo começou a se mover.

Não através de metas novas ou de mais disciplina, mas mudando o que eu dizia para mim mesma. Não como afirmação positiva vazia, mas como diálogo interno real, honesto, consistente. Antes, para começar a correr eu precisava do tênis certo, da condição certa, do momento certo. Quando mudei, passei a correr com o tênis furado que era o que eu tinha. Todo dia aumentava um pouco a meta e cheguei a fazer 10 km. E foi assim que, com o passar dos meses, não só passei a amar ir para a academia todos os dias, como segui planos alimentares sem esforço, parei de ficar no celular até tarde para conseguir dormir melhor, parei de esquecer de beber água, passei a estudar por horas sentindo prazer e fui, lentamente, me desconectando de notícias e distrações vazias. Criei o meu próprio universo.

Constância costuma ser associada à repetição de hábitos, à disciplina diária, à rotina organizada. Mas antes de ser uma sequência de ações, ela é a habilidade de sustentar decisões internas mesmo quando o cenário externo não se ajusta imediatamente a elas.

Toda escolha verdadeira altera alguma coisa ao redor. Decidir fortalecer o corpo muda horários e prioridades. Decidir acalmar a mente muda a forma como você reage. Decidir viver com mais presença muda aquilo que você tolera. Essas alterações nem sempre são compreendidas por quem convive com você e nem sempre produzem resultados visíveis de imediato. É nesse intervalo, quando ninguém vê e nada ainda mudou, que a constância de fato acontece.

Quando começamos alguma atividade ou um novo hábito, o impulso inicial costuma ser forte. Há motivação, clareza e até entusiasmo. O desafio começa quando surgem os pequenos desconfortos, as dúvidas silenciosas e a sensação de estar caminhando sozinha em determinadas escolhas. É fácil manter uma decisão quando ela é validada externamente. O difícil é sustentá-la quando ela exige suportar períodos de ajuste, inclusive dentro dos próprios vínculos.

Tive quedas, lesões, me machuquei, adoeci, fiquei sem trabalho, fiquei sem dinheiro. E prossegui. Constância não é rigidez. Não é insistir cegamente em algo que perdeu sentido. É revisar a própria intenção com honestidade e, quando ela ainda é verdadeira, continuar. Crescimento raramente é linear. E não se abandonar no meio do caminho é bem mais difícil do que começar.

É fácil se deixar convencer. É só um docinho, uma tacinha, um brinde, uma bobagem sem importância. E realmente é, quando vem de uma pessoa. O problema é que nunca vem de uma só. Quando o objetivo é claro, são exatamente essas pequenas distrações que precisam ser aprendidas a lidar, uma por uma.

Existe uma diferença importante entre adaptar-se e reduzir-se. Adaptar-se faz parte da convivência humana. Reduzir-se é abrir mão de valores que você reconhece como essenciais apenas para evitar desconforto. Maturidade é saber o que não negocia e o que pode ceder.

Permanecer fiel ao que você decidiu ser não é para ninguém. É só seu.

Quando você observar alguém alcançando um resultado que você também deseja, vale lembrar que ninguém viu os dias em que essa pessoa continuou sem motivo nenhum além de ter decidido. O que as pessoas veem é só o final. O processo não rende aplauso nenhum.

Constância não começa na ação. Começa no que você diz para si mesma quando ninguém está ouvindo.

Tédio não é vazio. É a primeira forma de paz.

Um texto sobre repouso, tédio e a possibilidade de estar em paz

Por muito tempo me disseram que eu era preguiçosa. Não porque eu não fizesse as coisas. Eu fazia. Mas porque havia em mim uma disposição estranha para ficar, uma rebeldia teimosa em não fazer coisas que não faziam sentido pra mim, e uma recusa silenciosa em entrar na pressa e na ansiedade que todo mundo ao meu redor parecia aceitar como parte normal da vida.

Enquanto outras crianças precisavam ser entretidas, eu conseguia passar horas em estados que os adultos chamariam de improdutivos. Eu me deitava no chão e observava o movimento lento das nuvens. Ficava olhando para aquelas pequenas bolinhas brancas e quase transparentes que piscam no céu, pontos que aparecem e desaparecem, e imaginava que eram almas nascendo e morrendo a cada instante. Não havia drama nos meus momentos de isolamento. Era apenas um ritmo acontecendo.

Eu tomava banho de sol até a pele aquecer e começar a suar, sem pressa. Ficava em silêncio no porão escuro da casa, sentindo o gelado da terra no corpo, observando as aranhas tecendo suas teias sem testemunhas. E havia também os banhos.

Eu passava horas deitada na banheira, simplesmente sentindo a água sustentar o meu corpo, relaxar os músculos, apagar a noção do tempo. Minha avó vinha e voltava em silêncio, trazendo mais um balde de água quente com ervas cheirosas. Ela me olhava feliz, com um tipo de alegria tranquila, como quem reconhece algo que não precisa ser explicado. Não havia pressa para terminar, nem tentativa de me tirar dali. Apenas o cuidado simples de prolongar aquele estado de bem-estar.

Nada daquilo era extraordinário. Nada gerava aplauso. Nada rendia.

E ainda assim, havia prazer.

Sempre gostei de olhar para a natureza dessa forma, como se o meu olhar pudesse dizer em silêncio: eu te vejo, eu sou testemunha.

Houve um período da minha vida em que fui o oposto disso tudo. Tornei-me extremamente produtiva. Tão produtiva que comecei a aparecer na televisão, em revistas e jornais. Passei a ser reconhecida na rua. Recebia cartas, presentes, elogios. Pessoas que nunca haviam me respeitado quando eu não fazia nada passaram a me tratar bem. Até dentro da família o olhar mudou.

Foi ali que entendi, com uma clareza quase cruel, o funcionamento do jogo: fazer para ser, produzir para merecer, aparecer para ser amada.

Entrei nesse ritmo com dedicação. E ele respondeu. Mas o custo foi alto. O corpo começou a cobrar. A saúde foi se esgotando aos poucos, como quem paga uma conta silenciosa. Levei anos me resgatando dessa necessidade quase obsessiva de ser útil, de causar boa impressão, de sustentar um valor que só existia enquanto eu rendia.

Crescemos ouvindo que quem para fica para trás. Que quem não se ocupa o tempo todo está desperdiçando a vida. E, pouco a pouco, vamos desaprendendo a simplesmente habitar o momento sem transformá-lo em tarefa.

Ao longo da vida, eu me recusei a mudar nesse ponto essencial. E, nas poucas vezes em que tentei organizar uma vida voltada demais para o mundo exterior, para a produção constante, para ser aprovada e reconhecida, eu adoeci. Foi assim que entendi algo simples e definitivo: abrir mão do meu prazer de existir não valia o sacrifício.

Hoje sei que o tédio que tanto tememos não nasce da falta de estímulo. Ele nasce do encontro com um corpo que não foi sustentado para repousar. Basta que as obrigações terminem para que uma inquietação apareça. A vontade de pegar o celular. De criar uma demanda artificial. De preencher o espaço com qualquer coisa que impeça o silêncio de se instalar.

Reconhecer que se está entediada já é, em si, um gesto raro. A maioria das pessoas foge do tédio antes de percebê-lo, preenchendo cada brecha com estímulo, com movimento, com qualquer coisa que impeça o encontro consigo mesma. Quem consegue ficar parada o suficiente para sentir o tédio de verdade já está, sem perceber, tomando conta de si mesma de um jeito que nem sempre é compreendido, e não raras vezes é criticado.

Chamamos isso de produtividade. Mas muitas vezes é só incapacidade de estar em paz.

Quando o corpo não sabe repousar, a paz parece ameaça. O tédio vira sintoma. Mas, se permanecemos ali sem fugir, algo se reorganiza. A respiração muda. O pensamento desacelera. O corpo deixa de pedir estímulo o tempo todo.

Não surge euforia. Surge estabilidade.

Gosto de fechar os olhos e sentir que tenho valor por estar, todos os dias, comigo mesma. Gosto de não desistir de continuar sendo quem sou, mesmo quando meu valor é questionado por não ter dinheiro ou bens para mostrar.

Não ter gerado bens não me deixou vazia. Eu coleciono outra coisa: histórias. Momentos de vida intensamente vividos por dentro.

Talvez o tédio nunca tenha sido vazio. Talvez ele sempre tenha sido a primeira forma de paz que aprendi a reconhecer.

E a isso chamei de amor. Ou, simplesmente, ser.

Aprender a perder

Abandonei uma banda e uma empresa que faziam sucesso quando percebi que já não era feliz. Estava esgotada, adoecida, e o corpo havia parado de consentir muito antes de eu conseguir nomear o que estava acontecendo. Fui julgada por não ser capaz de ir até o final, como se persistir diante das dificuldades fosse sempre a escolha certa, como se o sucesso que viria depois justificasse permanecer onde algo essencial já havia morrido. Mas o que as pessoas chamavam de desistência era, por dentro, a única escolha honesta que me restava.

Aprendi sobre perda também de outra forma, mais lenta e mais definitiva. Acompanhei meus avós até o fim, atravessei cada fase do envelhecimento deles, vi a vida deles se tornar cada vez mais feita de memórias e de reavaliações silenciosas. E foi nessa proximidade com o que é inevitável que entendi algo que nenhum livro teria me dado: que uma vida vivida para os outros, esquecendo de si no processo, cobra um preço que só aparece no final, quando já não há tempo para recomeçar.

O corpo sabe antes da mente, e quando insistimos em permanecer onde já não há verdade, ele responde da única forma que não consegue ser ignorada: adoecendo.

Durante anos falei sobre presença a partir de um entendimento que ficava só na cabeça. As ideias faziam sentido, mas não produziam mudança real. Foi apenas quando aprendi a sentir as emoções no corpo, sem tentar explicá-las ou controlá-las, que algo começou a se mover. Esse aprendizado veio primeiro através de uma terapia de respiração e, mais tarde, se aprofundou nos rituais de ayahuasca. Permanecer com a emoção até o fim, sem fugir para a explicação, revelou algo que não tem como ser ensinado, só vivido: o corpo sempre foi a bússola mais precisa do que estava acontecendo comigo.

Grande parte do sofrimento não vem do que sentimos, mas da tentativa constante de não sentir. Emoções ignoradas não desaparecem, elas se deslocam, tornam-se tensões que não passam, cansaço que não desaparece depois de dormir, ansiedade que não encontra objeto. A mente segue elaborando, mas o corpo registra tudo. E quando há conflito entre o que pensamos e o que sentimos, o corpo costuma mostrar o que está acontecendo de verdade muito antes de a mente estar disposta a admitir.

Perder, quando o corpo já não aguenta mais, é a única saída que ainda resta, mesmo que ninguém ao redor consiga entender isso como coragem. Perder as aparências que organizavam a vida por fora mas não por dentro. Os ganhos que mantinham tudo funcionando enquanto algo essencial ia se apagando. As pessoas cujo vínculo estava construído sobre um terreno que você decidiu abandonar, não porque sejam más, mas porque pararam de fazer sentido quando você parou de se encaixar onde não cabia.

Perder aquilo que aprendemos a amar, ou a necessitar, é difícil também porque nem sempre sabemos distinguir as duas coisas. É mais fácil se agarrar, tentar permanecer até o fim, mesmo quando, em algum lugar mais fundo, já sabemos o que precisa ser feito.

Há também um cansaço que quase nunca é nomeado nesse processo. O cansaço de precisar se explicar para quem não consegue acompanhar o que você está atravessando. De ser cobrada por performance justamente quando decidiu parar de se justificar. Porque quando o seu não precisava de explicação para ser respeitado, algo que parecia simples se tornava o gesto mais caro de todos. Nem todo mundo acompanha quando você para de se encaixar. E insistir em ser entendida por quem não consegue pode custar mais do que sustentar o próprio silêncio.

Perder é a coisa mais difícil de sustentar porque não acrescenta nada à imagem que construímos de nós mesmas. Apenas retira o que não é essencial, e isso provoca tristeza, desconforto e, às vezes, dor. Mas é também o único movimento que permite que algo mais verdadeiro ocupe o lugar do que ficou vazio.

No fim, o que permanece não é uma ideia melhor sobre si. É um corpo mais habitável. E a capacidade, cada vez mais clara, de dizer não ao que deixou de fazer sentido.

O que aprendi habitando os meus extremos

Conheço por dentro o que é viver períodos em que tudo parece possível, como se a energia não tivesse fim e a vida respondesse a cada decisão. Havia momentos de grande realização, criatividade e impulso. Eu avançava, produzia, criava, me movia com intensidade. Os resultados vinham, mas o custo era alto. Uma desorganização constante e uma exaustão que, cedo ou tarde, me deixavam sem chão.

Depois vinham os outros momentos. O cansaço profundo, a tristeza, o recolhimento, o isolamento social. Não sei dizer se havia tédio ali. Talvez não houvesse espaço suficiente para percebê-lo. O que existia era uma alternância difícil de sustentar, que organizava a vida em picos e quedas, sem continuidade possível.

Também conheço o outro extremo. Já fui aquela que recuava. A que tentava controlar a vida pela paralisação, com medo de errar, de ser julgada ou de confirmar a sensação persistente de não ser boa o bastante para nada, por mais que estudasse, aprendesse ou me dedicasse. Eu economizava vida para não perder nada e acabava não colhendo nada.

Ter atravessado esses dois lugares me deu uma compreensão que não veio dos livros. Hoje, quando recebo conselhos de pessoas impulsivas que me acham parada demais, eu sorrio em silêncio. Eu sei exatamente como a mente delas funciona. Conheço o vício na adrenalina da conquista, a confusão entre velocidade e avanço real, a ilusão de que estar sempre fazendo algo é sinal de vitalidade. Muitas vezes, esse fazer desgovernado é apenas uma maneira de não precisar encarar o vazio de estar consigo mesma.

Vivemos em uma sociedade que valoriza o excesso de ação, mesmo quando essa ação não se sustenta. A pressa e a produtividade exaustiva recebem aplausos imediatos, enquanto a pausa, o preparo e a construção silenciosa são lidos como fraqueza ou estagnação. Mas o corpo não se deixa enganar por muito tempo. O conhecimento de si ensina, mais cedo ou mais tarde, que o reconhecimento externo não paga a conta do desgaste interno.

Também encontrei pessoas mais estáticas, que se impressionam com tudo o que já realizei ou com a coragem de ter abandonado tantos caminhos. Reconheço nelas algo que também já foi meu, o medo de se expor, a cautela que protege mas também paralisa. Mas hoje consigo enxergar algo que antes eu ignorava. A importância do preparo, do estudo aprofundado, do tempo de maturação e da segurança. Aprendi a respeitar a paciência e a constância desses perfis, virtudes que o meu lado impulsivo desprezava.

Habitar esses dois extremos me deu algo que não tem nome fácil, mas que reconheço em cada escolha que faço hoje. A compreensão de que a vida que eu desejo não mora nos extremos.

Aprendi a me centrar e sentir de onde vem o que faço, se vem de mim ou da necessidade de obter afeto de outras pessoas. E aprendi também a me manter equilibrada mesmo quando esse afeto não vem. Quando vem de dentro, é mais fácil me manter equilibrada com minhas escolhas.

O tédio que tanto tememos quase sempre surge quando estamos vivendo uma vida que não é nossa, seguindo scripts que nunca escolhemos de verdade. Quando paramos de segui-los, o tédio muda de natureza. Muitas vezes, é apenas a paz tentando chegar.

Por que você sente um vazio quando realiza um sonho

Viajar para a Índia era um sonho de infância, antigo, desses que se formam muito antes de a gente ter palavras para explicar. Começou quando li Autobiografia de um Iogue ainda criança. Eu não compreendia tudo, mas isso nunca foi um problema. O que me marcou não foram explicações racionais, e sim os relatos de êxtase, de amor, de estados de consciência que pareciam inalcançáveis e ainda assim, falavam forte dentro de mim. Santos e santas que viviam numa entrega tão profunda que transbordava alegria, presença e compaixão. Aquilo me impressionou profundamente. Mas havia algo mais ali, mesmo que eu só fosse perceber depois: esses estados não vinham apenas de esforço. Eles exigiam anos de disciplina, silêncio, treino da mente, do corpo e das emoções, mas também uma entrega que ia além de qualquer controle. Êxtase não era conquista. Era consequência.

Meu sonho, então, não era apenas conhecer um país. Era, quem sabe um dia, estar na presença de alguém assim. Acreditava que esse encontro poderia me transformar, como se algo se reorganizasse por dentro apenas por proximidade. Existia ali uma expectativa silenciosa de que a experiência certa, no lugar certo, com as pessoas certas, produziria em mim algo definitivo.

Anos depois, a viagem aconteceu de forma quase mágica e inesperada. Recebi o convite para participar do Kerala Blog Express, duas semanas cruzando o sul da Índia, num ônibus confortável, com pessoas do mundo todo, atravessando cidades, vilarejos, paisagens intensas, florestas, ilhas, templos, hotéis luxuosos e regiões de extrema simplicidade. Estive lá e vivi aquilo que por muito tempo chamei de sonho.

Ao longo da viagem, foi ficando clara para mim a diferença entre a forma como grande parte do Ocidente se relaciona com o presente e como muitos indianos ainda o habitam. Enquanto ali a vida parecia acontecer no agora, nós, ocidentais, parecíamos estranhamente conectados e desconectados ao mesmo tempo. Conectados às câmeras, à necessidade de registrar. Desconectados do que de fato estava acontecendo.

Passei a viagem inteira com a sensação de que a minha vida tinha virado um filme, e de que a maior parte de nós estava sonhando acordada. As câmeras se ligavam, os sorrisos apareciam, as frases prontas eram ditas. Quando as câmeras desligavam, os rostos fechavam. Surgiam o cansaço, a irritação, a impaciência. Havia pouca presença. Pairava no ar uma ansiedade constante, como se tudo precisasse ser vivido rápido demais para não se perder nada e, justamente por isso, quase nada fosse realmente vivido.

As coisas aconteciam numa velocidade que não permitia experiência. Não havia tempo para sentir, para deixar algo descer, para permitir que aquilo encontrasse um lugar dentro do corpo. O mundo passava rápido demais pelos olhos, e o corpo ficava para trás tentando acompanhar.

Dentro de mim, tudo também acontecia na velocidade da luz. A variedade de sotaques do inglês, as paisagens que mudavam o tempo todo, as pessoas, os templos tão diferentes de tudo o que eu já tinha visto em toda a minha vida, as arquiteturas, os pássaros que nunca tinha visto além dos filmes, os olhares sorridentes do povo indiano, o caos do trânsito, a variedade de sabores e aromas, o luxo convivendo com a simplicidade extrema. Tudo me atravessava ao mesmo tempo. Eu absorvia, mas não conseguia nomear. Me faltava, e ainda me falta, linguagem. À noite, quando dormia, meu cérebro parecia repassar tudo o que eu havia visto durante o dia, como se eu estivesse sempre ligada numa tomada 220.

Antes dessa viagem, outras escolhas da minha vida já tinham sido guiadas por essa mesma lógica. Quando cursei Relações Internacionais, foi porque imaginava uma vida viajando pelo mundo, circulando entre países, culturas, experiências. Tudo fazia sentido dentro da fantasia que eu havia construído, uma vida de movimento constante, descoberta e expansão. Só depois da Índia entendi que aquilo não era um desejo verdadeiro meu, apenas uma ideia bonita sobre como a vida poderia ser.

Foi justamente na Índia, minha primeira viagem internacional, no meio dessa experiência tão desejada, que algo começou a se esvaziar. Não como frustração imediata, mas como percepção. Eu estava vivendo algo que sempre quis e, ainda assim, havia um silêncio estranho por dentro. Um vazio que não combinava com o cenário, com a história, com o privilégio daquela vivência.

Ali, pela primeira vez, algo se organizou com clareza. Eu tinha a viagem, tinha a experiência, tinha a história para contar. Mas vivências, por mais intensas que sejam, não formam por si mesmas o que eu admirava naqueles relatos. Os estados que me tocaram quando criança não vinham do quanto se vive, mas de uma vida inteira dedicada ao conhecimento de si.

Lembro de uma manhã, num pequeno hotel em uma ilha, quando conversei com um professor de ioga muito discreto. Ele me disse, com certa tristeza, que ficava chateado ao ver as pessoas acreditando que yoga era comprar um tapete, vestir uma camiseta indiana, fazer poses e tirar fotos. Disse que yoga não era nada daquilo. Yoga era o que estávamos fazendo ali, naquele momento: estar presentes. Foi como encontrar alguém que estava acordado e sabia disso. Encontrei outras pessoas assim na viagem, mas elas não falavam sobre isso, apenas viviam.

Voltei da Índia transformada, mas não da forma que eu imaginava quando era mais jovem. Não houve iluminação repentina, nem revelação espetacular. Houve algo mais silencioso e, talvez por isso, mais profundo: uma decisão. Meu sonho deixou de ser conhecer o mundo inteiro. Não porque o mundo tenha perdido valor, mas porque compreendi que nenhuma paisagem produz, sozinha, os estados de amor e consciência que eu admirava nos livros. Ainda pretendo conhecer lugares menos visitados, paisagens onde a vida acontece fora do espetáculo, mas isso já não ocupa mais o lugar que ocupava antes.

Talvez seja por isso que tantas pessoas realizem sonhos e, ainda assim, se sintam vazias depois. Não porque sonharam errado, mas porque confundiram sonho com experiência. Os estados que mais nos tocam não se compram, não se visitam, não se acumulam. Eles exigem presença, e alguém capaz de permanecer. Como aquelas pessoas que encontrei na viagem e que não falavam sobre isso, apenas viviam.

Meu sonho passou a ser outro: acordar todos os dias em paz com a vida que tenho, sem me confundir entre ter para ser. Algo especialmente difícil para quem vive no Ocidente, onde o valor de uma pessoa é medido pelo que tem, pelos títulos, pelo sucesso, pelo dinheiro que possui.

Esse foi o vazio que encontrei. E foi ele que me mostrou que o sonho que eu buscava desde a infância não terminava quando a viagem acabava, ele começava quando eu voltava para casa.

É como diz a minha filósofa brasileira favorita, Lúcia Helena Galvão: projeto é do ter. Sonho é do ser.

A parte mais difícil de cuidar do corpo

Às vezes a parte mais difícil de começar a cuidar do corpo não é o treino, nem a disciplina, nem a organização da rotina. O que realmente pesa é perceber que, quando você decide se fortalecer, algo ao redor também começa a se mover. Mudam os horários, mudam os hábitos, muda a energia com que você se apresenta no mundo. E, sem que ninguém diga nada explicitamente, certas dinâmicas passam a ficar desconfortáveis.

Existe uma lealdade silenciosa construída dentro dos vínculos. Pessoas se aproximam por afinidades reais, por ritmos parecidos, por formas semelhantes de lidar com o cansaço e com o prazer. Quando alguém altera esse ritmo, a mudança não é apenas individual. Ela toca acordos implícitos que sustentavam aquela convivência. Não porque haja maldade ou oposição consciente, mas porque toda transformação reposiciona quem está por perto.

Muitas desistências não nascem da falta de capacidade ou de força de vontade. Elas nascem da culpa. Culpa por ter mais energia quando os outros estão esgotados. Culpa por escolher acordar cedo quando o ambiente se organiza em torno do excesso. Culpa por decidir regular o próprio corpo enquanto pessoas queridas permanecem presas a padrões que já não fazem sentido para você. Essa culpa é sutil, quase imperceptível, mas suficiente para fazer alguém recuar.

Quando parei de comer açúcar, percebi algo que não esperava. Bastava mencionar isso numa mesa de café para que as pessoas ao redor começassem a se defender, sem que eu tivesse dito nada. O meu não virava um julgamento implícito sobre o sim delas. E o que deveria ser uma escolha minha, silenciosa e pessoal, transformava o ambiente inteiro. Com o álcool foi diferente, mas igualmente revelador. Em encontros a dois, recusar uma bebida era suficiente para a outra pessoa querer ir embora. Não havia discussão. Apenas a percepção de que minha escolha havia quebrado algo que ela precisava que fosse compartilhado.

Fortalecer o corpo não é apenas melhorar a estética ou a saúde. É alterar a forma como você ocupa espaço. Um corpo mais forte costuma trazer mais presença, mais clareza, mais autonomia. E isso modifica a dinâmica dos encontros. Algumas conversas deixam de interessar, certos ambientes passam a cansar mais rápido, determinados hábitos perdem a graça. Não porque você se tornou superior ou melhor, mas porque você mudou.

O ponto delicado é que, diante desse desconforto, muita gente escolhe diminuir a própria expansão para continuar pertencendo. Ajusta o ritmo, suaviza escolhas, interrompe o processo para que tudo volte ao que era antes. Parece mais fácil manter a familiaridade do que sustentar a transformação. Só que, com o tempo, essa redução interna começa a gerar um tipo de tensão difícil de ignorar.

Cuidar do corpo é um gesto físico, mas também é um posicionamento. É afirmar, de maneira prática, que a sua energia importa, que sua saúde importa, que sua clareza mental importa. Nem todos acompanharão esse movimento no mesmo ritmo, e isso não precisa se transformar em conflito. Cada pessoa vive seus próprios processos. O que não pode acontecer é você abandonar o seu.

Sustentar uma rotina não é apenas repetir ações todos os dias. É tolerar o desconforto inicial que surge quando você deixa de caber exatamente onde sempre coube. É compreender que crescer altera o ambiente, mas não por agressão. Apenas porque mudança real nunca é invisível. E, se o fortalecimento é verdadeiro, ele começa dentro, antes de qualquer resultado externo aparecer.

Firmeza: a forma mais silenciosa de autoestima

“Se você tentou se adaptar a uma forma e não conseguiu, talvez tenha tido sorte.”
— Clarissa Pinkola Estés

O Patinho Feio foi meu primeiro livro de infância, um presente da minha avó Esperança, cuja capa velha e desgastada conservo até hoje. Na época, eu não saberia explicar por quê, mas a sensação de não caber já estava ali. Entre as crianças, eu me sentia deslocada. Sempre achei mais fácil me relacionar com pessoas mais velhas, especialmente idosas. Gostava da calma delas, do jeito como contavam suas histórias, de ouvir sobre a vida com mais tempo e menos urgência. Ao longo da vida, essa sensação de não pertencimento reapareceu em outros contextos: grupos, trabalhos, relações. A resposta quase sempre foi a mesma: me ajustar.

Anos depois, já adulta, ao ler Mulheres que Correm com os Lobos, algo fez sentido de forma mais profunda. Clarissa Pinkola Estés fala sobre como, ao longo da vida, muitas mulheres aprendem a conter seus impulsos para caber. A serem educadas, razoáveis, recatadas, a não incomodar, a não exagerar, a não ocupar espaço demais. Em troca, buscamos algo muito simples: aprovação. Mas esse esforço constante para caber tem um custo alto. Pouco a pouco, a gente se perde. Não é a diferença que machuca. É a tentativa de anulá-la para ser aceita.

Esse movimento de agradar nem sempre é visível. Nem sempre assume a forma da pessoa boazinha, disponível, que diz sim para tudo. Às vezes, ele também aparece vestido de rebeldia. A máscara muda, mas o mecanismo é o mesmo. Em vez de buscar aprovação sendo adequada, busca-se aprovação sendo intensa, contestadora, diferente, provocadora. Muda o papel, mas a dependência permanece. No fundo, continua existindo a necessidade de ser vista, validada, reconhecida. E, sem perceber, a vida passa a girar em torno do olhar do outro, seja pelo aplauso, pela reação ou pela necessidade de ser útil a alguém. Quando não há plateia, quando não há demanda, quando não há alguém a quem servir ou impressionar, surge o vazio. E junto com ele, a pergunta que foi evitada por muito tempo: quem eu sou quando ninguém está olhando?

Durante muito tempo, autoestima foi vendida como uma sensação: sentir-se confiante, gostar de si, acreditar no próprio valor. Mas existe uma camada mais profunda, e bem menos confortável, da autoestima: a capacidade de se sustentar no mundo. Autoestima real não nasce do que você sente sobre si. Ela nasce da coerência entre o que você promete e o que você entrega. Entre o que você diz e o que você sustenta quando ninguém está te aplaudindo.

Acho importante deixar claro que sustentar-se no mundo não é sobre dinheiro. É possível pagar contas, manter uma vida funcionando e, ainda assim, não ter firmeza nenhuma. Dinheiro permite existir no mundo. Não garante coerência interna. Sustentação, no sentido mais profundo, não é quanto você ganha. É o quanto você consegue se manter íntegra diante das suas escolhas.

É disso que se trata a firmeza. Firmeza não é dureza. É coerência. É parar de resolver pelo outro, de dar desculpas, de justificar o que não se sustenta, de ocupar lugares que não são seus. Firmeza é cumprir o que se promete, mesmo quando isso custa aprovação, mesmo quando gera desconforto, mesmo quando algumas pessoas se afastam. Quando pensamento, palavra e ação se alinham, algo muda. O mundo responde diferente.

Organizar a própria casa interna não significa ter a vida toda resolvida. Ninguém tem. Significa saber o que é essencial para si, reconhecer o que ainda precisa ser ajustado e estar disposta a cuidar disso, sem usar a vida do outro como distração. Quando a própria casa não está minimamente organizada, é comum sair dela para tentar organizar a do outro. Conversar sobre a desordem, resolver, opinar, ajudar. Isso não organiza nenhuma vida. Apenas evita voltar para a própria. E, sem base, a gente se perde facilmente na bagunça alheia.

Existe um preço em parar de se abandonar para sustentar vínculos que já não fazem sentido. Algumas pessoas se frustram, se afastam, dizem que você mudou, sentem-se abandonadas. Isso faz parte. Quando você para de se adaptar, de se explicar, de permanecer onde já não há afinidade, o campo ao redor se reorganiza, e, junto com ele, você também.

Há momentos em que esse movimento produz isolamento. Não como punição, mas como diz Clarissa, como uma dádiva. Um período como um tempo necessário, em que a vida afasta o barulho externo para que a alma possa ser reencontrada. É ali que a persistência é testada, não importa o que aconteça fora. É ali que se aprende a permanecer sem aplauso. É ali que o vínculo deixa de ser com a expectativa do outro e passa a ser com a própria alma.

Autoestima madura não é evitar essas consequências. É atravessá-las sem voltar atrás. Com o tempo, algo muda. Você deixa de ser procurada por necessidade e passa a atrair por afinidade. Não porque endureceu ou ficou fria, mas porque se sustentou.

Autoestima não é conforto constante, nem afirmação vazia. É não se abandonar quando custa. Firmeza é cumprir o que se promete, para si mesma, antes de tudo. É sobre não se trair. O resto é consequência.

Crescer muda os encaixes

Por muitos anos encontrei pertencimento circulando em meios de cura e desenvolvimento pessoal. Foram anos de aprendizado real e de trocas genuínas. Mas chegou um dia em que olhei para a minha vida e não consegui reconhecer como todo aquele aprendizado estava de fato me transformando. Eu evoluía em muitas coisas e ainda assim continuava distante da pessoa que queria ser.

Foi quando decidi me afastar. Não de forma dramática, mas definitiva. Me dediquei a uma transformação concreta, de corpo e rotina, e me afastei de quem, até mesmo sem perceber, tentava me fazer mudar de opinião.

Em algum momento, a gente percebe que mudar não é apenas adquirir novos hábitos. É alterar a própria forma de perceber o mundo. Essa mudança quase nunca é barulhenta. Ela aparece na maneira como você interpreta uma situação, no tipo de conversa que passa a fazer sentido, naquilo que começa a parecer excessivo ou insuficiente. E quando a percepção muda, os encaixes também mudam.

Muitos vínculos nascem de afinidades reais entre versões específicas de quem somos. Pessoas se aproximam porque compartilham uma fase, uma dor, um ritmo, às vezes até uma forma parecida de evitar certos enfrentamentos. O problema surge quando uma das partes cresce em outra direção e tenta manter a mesma dinâmica como se nada tivesse mudado.

Nem toda distância significa ruptura. Nem toda permanência significa maturidade. Às vezes insistir em continuar exige silenciar percepções importantes, relativizar desconfortos recorrentes, fingir que ainda se identifica com algo que já não ressoa. Com o tempo, essa dissonância começa a pesar mais do que o medo de se afastar.

Aceitar que a afinidade é dinâmica não é desvalorizar o que foi vivido. É reconhecer que as pessoas evoluem em ritmos diferentes. Algumas caminham lado a lado por muitos anos, atravessando várias versões umas das outras. Outras compartilham apenas um trecho. Isso não transforma a história em erro, apenas delimita o tempo.

Existe uma maturidade discreta em permitir que as relações encontrem sua forma atual, mesmo que essa forma seja menos intensa ou menos frequente. O que antes era central pode se tornar memória respeitosa. O que era cotidiano pode virar eventual. E isso não precisa carregar ressentimento.

Permanecer por medo de perder o vínculo é uma forma sutil de estagnação. Permitir que os encaixes se ajustem ao que você se tornou é uma forma de respeito, por si e pelo outro.