Tédio não é vazio. É a primeira forma de paz.

Um texto sobre repouso, tédio e a possibilidade de estar em paz

Por muito tempo me disseram que eu era preguiçosa.
Não porque eu não fizesse as coisas. Eu fazia.
Mas porque havia em mim uma disposição estranha para ficar. E uma rebeldia teimosa em não fazer coisas que não faziam sentido pra mim.

Enquanto outras crianças precisavam ser entretidas, eu conseguia passar horas em estados que os adultos chamariam de improdutivos. Eu me deitava no chão e observava o movimento lento das nuvens. Ficava olhando para aquelas pequenas bolinhas brancas e quase transparentes que piscam no céu, pontos que aparecem e desaparecem, e imaginava que eram almas nascendo e morrendo a cada instante. Não havia drama nos meus momentos de isolamento. Era apenas um ritmo acontecendo.

Eu tomava banho de sol até a pele aquecer e começar a suar, sem pressa. Ficava em silêncio no porão escuro da casa, sentindo o gelado da terra no corpo, observando as aranhas tecendo suas teias sem testemunhas. E havia também os banhos.

Eu passava horas deitada na banheira, simplesmente sentindo a água sustentar o meu corpo, relaxar os músculos, apagar a noção do tempo. Minha avó vinha e voltava em silêncio, trazendo mais um balde de água quente com ervas cheirosas. Ela me olhava feliz, com um tipo de alegria tranquila, como quem reconhece algo que não precisa ser explicado. Não havia pressa para terminar, nem tentativa de me tirar dali. Apenas o cuidado simples de prolongar aquele estado de bem-estar.

Nada daquilo era extraordinário.
Nada gerava aplauso.
Nada rendia.

E ainda assim, havia prazer.

Sempre gostei de olhar para a natureza dessa forma, como se o meu olhar pudesse dizer em silêncio: eu te vejo, eu sou testemunha.

Uma vez li em um livro que dizia que toda planta tinha um elemental vivo dentro dela, como uma pequena fada. E que toda vez que um humano apreciava uma flor de verdade, uma fada morria de amor. Nunca soube se aquilo era literal. Mas a imagem ficou. Desde então, olhar nunca me pareceu um gesto neutro. Havia ali uma delicadeza. Uma responsabilidade silenciosa.

Foi assim que passei a olhar para a natureza depois disso, especialmente as flores. Às vezes eu apenas olhava. Outras vezes, arrancava. O texto dizia que quando alguém colhia a flor, a fada morria. E eu nunca soube exatamente o que isso significava. Se morrer de amor era desaparecer ou se entregar por inteiro num gesto final, como quem completa uma existência. Fiquei muito tempo suspensa nessa dúvida, entre tocar e preservar, entre levar comigo e deixar ficar.

Aprendi cedo que nem todo gesto tem resposta certa. E não tenho essa resposta até hoje.

Houve um período da minha vida em que fui o oposto disso tudo. Tornei-me extremamente produtiva. Tão produtiva que comecei a aparecer na televisão, em revistas e jornais. Passei a ser reconhecida na rua. Recebia cartas, presentes, elogios. Pessoas que nunca haviam me respeitado quando eu não fazia nada passaram a me tratar bem. Até dentro da família o olhar mudou.

Foi ali que entendi, com uma clareza quase cruel, o funcionamento do jogo. Fazer para ser. Produzir para merecer. Aparecer para ser amada.

Entrei nesse ritmo com dedicação. E ele respondeu. Mas o custo foi alto. O corpo começou a cobrar. A saúde foi se esgotando aos poucos, como quem paga uma conta silenciosa. Levei anos me resgatando dessa necessidade quase obsessiva de ser útil, de causar boa impressão, de sustentar um valor que só existia enquanto eu rendia.

Crescemos ouvindo que quem para fica para trás. Que quem não se ocupa o tempo todo está desperdiçando a vida. E, pouco a pouco, vamos desaprendendo a simplesmente habitar o momento sem transformá-lo em tarefa.

Ao longo da vida, eu me recusei a mudar nesse ponto essencial. E, nas poucas vezes em que tentei organizar uma vida voltada demais para o mundo exterior, para a produção constante, para a validação e para a performance, eu adoeci. Foi assim que entendi algo simples e definitivo: abrir mão do meu prazer de existir não valia o sacrifício.

Hoje sei que o tédio que tanto tememos não nasce da falta de estímulo. Ele nasce do encontro com um corpo que não foi sustentado para repousar. Basta que as obrigações terminem para que uma inquietação apareça. A vontade de pegar o celular. De criar uma demanda artificial. De preencher o espaço com qualquer coisa que impeça o silêncio de se instalar.

Chamamos isso de produtividade.
Mas muitas vezes é só incapacidade de estar em paz.

Quando o corpo não sabe repousar, a paz parece ameaça. O tédio vira sintoma. Mas, se permanecemos ali sem fugir, algo se reorganiza. A respiração muda. O pensamento desacelera. O corpo deixa de pedir estímulo o tempo todo.

Não surge euforia.
Surge estabilidade.

Gosto de fechar os olhos e sentir que tenho valor por estar, todos os dias, comigo mesma. Gosto de não desistir de continuar sendo quem sou, mesmo quando meu valor é questionado por eu não ter gerado bens, acúmulos ou resultados materiais ao longo da vida.

Não ter gerado bens não me deixou vazia.
Eu coleciono outra coisa: Histórias.
Momentos de vida intensamente vividos por dentro.

Talvez o tédio nunca tenha sido vazio.
Talvez ele sempre tenha sido a primeira forma de paz que aprendi a reconhecer.

E a isso chamei de amor.
Ou, simplesmente, ser.

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