Abandonei uma banda e uma empresa que faziam sucesso quando percebi que já não era feliz. Estava esgotada, adoecida, e o corpo havia parado de consentir muito antes de eu conseguir nomear o que estava acontecendo. Fui julgada por não ser capaz de ir até o final, como se persistir diante das dificuldades fosse sempre a escolha certa, como se o sucesso que viria depois justificasse permanecer onde algo essencial já havia morrido. Mas o que as pessoas chamavam de desistência era, por dentro, a única escolha honesta que me restava.

Aprendi sobre perda também de outra forma, mais lenta e mais definitiva. Acompanhei meus avós até o fim, atravessei cada fase do envelhecimento deles, vi a vida deles se tornar cada vez mais feita de memórias e de reavaliações silenciosas. E foi nessa proximidade com o que é inevitável que entendi algo que nenhum livro teria me dado: que uma vida vivida para os outros, esquecendo de si no processo, cobra um preço que só aparece no final, quando já não há tempo para recomeçar.

O corpo sabe antes da mente, e quando insistimos em permanecer onde já não há verdade, ele responde da única forma que não consegue ser ignorada: adoecendo.

Durante anos falei sobre presença a partir de um entendimento que ficava só na cabeça. As ideias faziam sentido, mas não produziam mudança real. Foi apenas quando aprendi a sentir as emoções no corpo, sem tentar explicá-las ou controlá-las, que algo começou a se mover. Esse aprendizado veio primeiro através de uma terapia de respiração e, mais tarde, se aprofundou nos rituais de ayahuasca. Permanecer com a emoção até o fim, sem fugir para a explicação, revelou algo que não tem como ser ensinado, só vivido: o corpo sempre foi a bússola mais precisa do que estava acontecendo comigo.

Grande parte do sofrimento não vem do que sentimos, mas da tentativa constante de não sentir. Emoções ignoradas não desaparecem, elas se deslocam, tornam-se tensões que não passam, cansaço que não desaparece depois de dormir, ansiedade que não encontra objeto. A mente segue elaborando, mas o corpo registra tudo. E quando há conflito entre o que pensamos e o que sentimos, o corpo costuma mostrar o que está acontecendo de verdade muito antes de a mente estar disposta a admitir.

Perder, quando o corpo já não aguenta mais, é a única saída que ainda resta, mesmo que ninguém ao redor consiga entender isso como coragem. Perder as aparências que organizavam a vida por fora mas não por dentro. Os ganhos que mantinham tudo funcionando enquanto algo essencial ia se apagando. As pessoas cujo vínculo estava construído sobre um terreno que você decidiu abandonar, não porque sejam más, mas porque pararam de fazer sentido quando você parou de se encaixar onde não cabia.

Perder aquilo que aprendemos a amar, ou a necessitar, é difícil também porque nem sempre sabemos distinguir as duas coisas. É mais fácil se agarrar, tentar permanecer até o fim, mesmo quando, em algum lugar mais fundo, já sabemos o que precisa ser feito.

Há também um cansaço que quase nunca é nomeado nesse processo. O cansaço de precisar se explicar para quem não consegue acompanhar o que você está atravessando. De ser cobrada por performance justamente quando decidiu parar de se justificar. Porque quando o seu não precisava de explicação para ser respeitado, algo que parecia simples se tornava o gesto mais caro de todos. Nem todo mundo acompanha quando você para de se encaixar. E insistir em ser entendida por quem não consegue pode custar mais do que sustentar o próprio silêncio.

Perder é a coisa mais difícil de sustentar porque não acrescenta nada à imagem que construímos de nós mesmas. Apenas retira o que não é essencial, e isso provoca tristeza, desconforto e, às vezes, dor. Mas é também o único movimento que permite que algo mais verdadeiro ocupe o lugar do que ficou vazio.

No fim, o que permanece não é uma ideia melhor sobre si. É um corpo mais habitável. E a capacidade, cada vez mais clara, de dizer não ao que deixou de fazer sentido.

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