Em um mundo que só nos ensina a ganhar, perder talvez seja a arte mais difícil de sustentar se quisermos nos aproximar de quem realmente somos.
Aprender a perder quase nunca aparece como virtude. Desde cedo, somos ensinados a acumular, conquistar, avançar, melhorar. Ganhamos títulos, repertório, linguagem, personagens funcionais. Aprendemos a explicar quem somos antes mesmo de saber como estamos. Perder, nesse contexto, costuma soar como fracasso. Mas talvez seja justamente o contrário.
Durante alguns anos da minha vida, falei sobre presença a partir de um entendimento conceitual. As ideias faziam sentido, mas não produziam mudança real. Eu compreendia, concordava, me identificava. Ainda assim, algo permanecia intacto. Foi apenas quando aprendi a sentir profundamente as emoções no corpo, sem me identificar com elas, que algo começou a se deslocar. Esse aprendizado veio primeiro através de uma terapia de respiração e, mais tarde, se aprofundou nos rituais de ayahuasca.
Permanecer com a emoção até o fim, sem explicação, revelou algo simples e incontornável. O corpo sempre foi a bússola mais precisa do meu mundo interno. Não no sentido de revelar uma verdade definitiva sobre quem eu sou, mas de mostrar com clareza o estado real da minha mente naquele momento.
Ao longo dos anos, fui percebendo que muitas pessoas sentem medo de se conhecer de verdade. Não por falta de curiosidade, mas porque intuem o que esse encontro pode exigir. Quando começamos a enxergar com clareza as próprias atitudes inconscientes, algo se torna inevitável. Já não é possível sustentar os personagens que criamos para funcionar no mundo.
Aquilo que antes era explicado, justificado ou racionalizado passa a ser visto. E, uma vez visto, cobra consequência. Há escolhas que deixam de fazer sentido. Há relações que pedem pontos finais. Há formas de estar no mundo que já não se sustentam. Não porque alguém imponha, mas porque o corpo deixa de consentir. Quando insistimos em permanecer onde já não há verdade, o corpo responde. E, muitas vezes, responde adoecendo.
Perder, nesse processo, não é colapso. É renúncia. Renúncia a imagens que davam segurança. A narrativas que organizavam a vida por fora, mas não por dentro. A ganhos secundários que mantinham tudo aparentemente funcionando, enquanto algo essencial permanecia intocado.
Grande parte do sofrimento não vem do que sentimos, mas da tentativa constante de não sentir. Emoções ignoradas não desaparecem. Elas se deslocam. Tornam-se sintomas, tensões crônicas, ansiedade difusa, cansaço que não desaparece. A mente segue elaborando, mas o corpo registra tudo.
Quando há conflito entre o que pensamos e o que sentimos, o corpo costuma ser um reflexo mais confiável do estado interno do que o pensamento que tenta explicar. Pensamentos podem negar, justificar ou embelezar. Emoções, quando sentidas no corpo, mostram o que está acontecendo agora.
Aprender a perder, nesse sentido, é aprender a não se abandonar quando algo cai. É sustentar o desconforto de não saber quem se é por um tempo. De não recorrer imediatamente a explicações, teorias ou personagens. É permitir que o corpo atravesse aquilo que precisa ser atravessado para que algo mais verdadeiro possa emergir.
Esse movimento não é heroico, nem rápido. Ele pede tempo, presença e coragem silenciosa. Pede menos esforço e mais escuta. Menos tentativa de ganhar controle e mais disposição para perder o que já não se sustenta. Talvez por isso perder seja tão difícil. Porque não acrescenta nada à imagem. Apenas retira o que não é essencial. Provoca tristeza, desconforto e, às vezes, dor. Não é simples perder aquilo que aprendemos a amar. É mais fácil se agarrar, tentar permanecer até o fim, mesmo quando, em algum lugar mais fundo, já sabemos o que precisa ser feito.
Nesse processo, também um cansaço que quase nunca é nomeado. O cansaço de precisar se explicar o tempo todo para quem não entende o que você está atravessando. De ser cobrada por performance justamente quando decidiu não se deixar mais conduzir pela validação externa. De tentar traduzir processos internos profundos em palavras que nunca dão conta, apenas para não decepcionar, não frustrar, não parecer inadequada.
Aprender a perder envolve, muitas vezes, perder também essa necessidade de ser compreendida por todos. Perder o impulso de justificar escolhas que já foram sentidas no corpo. Perder a tentativa de manter personagens funcionando para que o outro permaneça confortável. Nem todo mundo acompanha quando algo essencial começa a se reorganizar. E insistir em ser entendida pode custar mais do que sustentar o próprio silêncio.
No fim, o que permanece não é uma ideia melhor sobre si. É um corpo mais habitável. Um ritmo mais honesto. Uma forma de estar no mundo que já não depende tanto de vencer, explicar ou sustentar algo que não é mais verdadeiro. E a capacidade, cada vez mais clara, de dizer não ao que deixou de fazer sentido.
Aprender a perder pode não nos dar respostas.
Mas pode nos devolver ao único lugar onde algo real começa.
O corpo, aqui, agora.



