Uma das habilidades mais valiosas em tempos de caos

Vivemos um tempo em que as palavras circulam rápido demais. São repetidas, compartilhadas e usadas antes mesmo de serem vividas. Presença é uma delas. Fala-se muito sobre estar presente, viver no agora, habitar o momento. Ainda assim, poucas pessoas sabem do que isso realmente significa, porque raramente experimentaram o silêncio necessário para reconhecê-la.

A maior parte de nós vive imersa em estímulos externos contínuos. Imagens, informações, opiniões, demandas, notificações. Há sempre algo chamando a atenção para fora, algo pedindo resposta imediata. Esse excesso vai se tornando normal, e quase ninguém percebe o quanto ele nos afasta da experiência direta de estar aqui, no corpo, conscientes do que acontece internamente.

O efeito desse afastamento aparece primeiro no corpo. Ansiedade constante, medo difuso, preocupação que não encontra repouso. A mente permanece ativa o tempo inteiro, comentando, analisando, comparando, antecipando cenários, revivendo o passado e imaginando futuros que raramente se concretizam. Pensamos o tempo todo sobre a vida enquanto a vivemos. Com o tempo, esse fluxo incessante passa a ser confundido com quem somos.

Essa atividade mental não fica restrita às ideias. Ela produz emoções reais e respostas físicas concretas. O corpo não distingue com clareza o que está acontecendo de fato do que está sendo imaginado repetidamente. Um pensamento recorrente, uma história mental insistente, um cenário antecipado já são suficientes para ativar estados de alerta, tensão e medo como se algo estivesse acontecendo agora. A imaginação, quando não é percebida, passa a regular o corpo.

Muitas pessoas passam anos inteiros identificadas com esse funcionamento. Reagem a cada pensamento como se ele exigisse resposta imediata. Um comentário interno gera emoção, a emoção alimenta novas interpretações, e o corpo permanece em estado de alerta sem descanso. Vive-se, então, como dentro de um labirinto interno, acreditando que pensar mais, entender melhor ou analisar tudo finalmente trará alívio. Mas o que acontece, na maior parte das vezes, é o oposto. Quanto mais identificação, mais ruído. Quanto mais ruído, mais confusão.

Desde a infância aprendemos a nos descrever, a nos explicar e a nos interpretar. Essas interpretações se acumulam e acabam formando uma imagem relativamente estável de quem acreditamos ser. Pouco a pouco, passamos a nos mover dentro desses contornos sem perceber. Dizemos que sempre fomos assim, que pensamos dessa forma, que reagimos desse jeito, e nos identificamos com ideias e pensamentos como se eles definissem a nossa existência. Em alguns casos, essa imagem ainda se torna idealizada, o que torna o afastamento do que é vivido ainda maior.

Quando essa imagem ocupa todo o espaço, o pensamento deixa de ser ferramenta e passa a ser identidade. O silêncio, que poderia ser repouso e espaço de criação, começa a ser vivido como ameaça. Para muitos, parar de pensar é como desaparecer.

Há uma cena em O Show de Truman que ilustra bem esse estado. O filme sugere a existência de alguém observando tudo de dentro da cabeça de Truman, como se houvesse uma instância interna acompanhando cada gesto e reação. Não apenas vivemos a vida, mas a atravessamos acompanhados por uma narração interna constante, enquanto aquilo que observa esse movimento permanece quase sempre esquecido.

Essa perspectiva raramente é reconhecida. Aquilo em nós que percebe os pensamentos surgirem e desaparecerem. Aquilo que observa emoções e reações sem precisar se confundir com elas. Essa visão não precisa ser criada nem aprendida como técnica. Ela já está presente. O que costuma faltar é espaço suficiente para percebê-la.

Houve um ponto de virada na minha vida quando tive contato com a ayahuasca. Pela primeira vez, vivi um estado de silêncio mental sustentado o suficiente para compreender, por experiência direta, a diferença entre o ruído habitual da mente e aquilo que permanece quando ele se aquieta. Não como ideia, mas como percepção clara.

A partir disso, comecei a reconhecer esse mesmo tema em diferentes narrativas culturais. Filmes que antes pareciam falar apenas de tecnologia, consumo ou controle passaram a revelar algo mais íntimo. Em WALL·E, por exemplo, as pessoas vivem sentadas diante de telas incessantes, corpos esquecidos, atenção capturada. Uma imagem bastante próxima da forma como muitos de nós vivem hoje.

Quando o corpo é esquecido, a presença se torna difícil. Presença não acontece apenas na mente. Ela é sentida no corpo, no ritmo, na respiração, na percepção simples do que está acontecendo agora. Uma vida conduzida apenas pelo pensamento condicionado tende a se tornar árida e exaustiva.

Talvez por isso as palavras estejam perdendo força. Falamos de presença, consciência e silêncio, mas sem o solo da experiência elas se esvaziam. A palavra permanece, mas o sentido se perde.

Em tempos de caos, talvez a questão não seja tentar organizar o mundo ao redor, mas aprender a cultivar um centro. Não um centro rígido ou idealizado, mas um ponto interno minimamente estável a partir do qual seja possível atravessar o movimento sem ser arrastado por ele. Poucas coisas na vida estão, de fato, sob nosso controle. Pessoas mudam, circunstâncias oscilam, perdas acontecem. Tentar controlar tudo costuma produzir apenas mais tensão.

Cultivar o centro é outra coisa. É a capacidade de permanecer presente mesmo quando o entorno está em desordem. Não porque nada nos afeta, mas porque existe um ponto interno que não oscila na mesma velocidade que os acontecimentos. Como permanecer no centro de um furacão, onde há um certo silêncio, enquanto tudo gira ao redor.

Em um mundo politicamente instável, economicamente ameaçador e emocionalmente saturado, essa talvez seja uma das habilidades mais valiosas. Não controlar a tempestade, nem tentar calar a mente à força, nem criar uma identidade nova pra interpretar. Apenas aprender a silenciar o suficiente para não perder o centro. A partir daí, algo mais consciente pode começar a se organizar.

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