Firmeza: a forma mais silenciosa de autoestima

“Se você tentou se adaptar a uma forma e não conseguiu, talvez tenha tido sorte.”
— Clarissa Pinkola Estés

O Patinho Feio foi meu primeiro livro de infância, um presente da minha avó Esperança, cuja capa conservo até hoje. Na época, eu não saberia explicar por quê, mas a sensação de não caber já estava ali. Entre as crianças, eu me sentia deslocada. Sempre achei mais fácil me relacionar com pessoas mais velhas, especialmente idosas. Gostava da calma delas, do jeito como contavam suas histórias, de ouvir sobre a vida com mais tempo e menos urgência. Ao longo da vida, essa sensação de não pertencimento reapareceu em outros contextos: grupos, trabalhos, relações. A resposta quase sempre foi a mesma: me ajustar.

Anos depois, já adulta, ao ler Mulheres que Correm com os Lobos, algo fez sentido de forma mais profunda. Clarissa Pinkola Estés fala sobre como, ao longo da vida, muitas mulheres aprendem a conter seus impulsos para caber. A serem educadas, razoáveis, recatadas, a não incomodar, a não exagerar, a não ocupar espaço demais. Em troca, buscamos algo muito simples: aprovação. Mas esse esforço constante para caber tem um custo alto. Pouco a pouco, a gente se perde. Não é a diferença que machuca. É a tentativa de anulá-la para ser aceita.

Esse movimento de agradar nem sempre é visível. Nem sempre assume a forma da pessoa boazinha, disponível, que diz sim para tudo. Às vezes, ele também aparece vestido de rebeldia. A máscara muda, mas o mecanismo é o mesmo. Em vez de buscar aprovação sendo adequada, busca-se aprovação sendo intensa, contestadora, diferente, provocadora. Muda o papel, mas a dependência permanece. No fundo, continua existindo a necessidade de ser vista, validada, reconhecida. E, sem perceber, a vida passa a girar em torno do olhar do outro, seja pelo aplauso, pela reação ou pela utilidade que se tem na vida das pessoas. Quando não há plateia, quando não há demanda, quando não há alguém a quem servir ou impressionar, surge o vazio. E junto com ele, a pergunta que foi evitada por muito tempo: quem eu sou quando ninguém está olhando?

Durante muito tempo, autoestima foi vendida como uma sensação: sentir-se confiante, gostar de si, acreditar no próprio valor. Mas existe uma camada mais profunda, e bem menos confortável, da autoestima: a capacidade de se sustentar no mundo. Autoestima real não nasce do que você sente sobre si. Ela nasce da coerência entre o que você promete e o que você entrega. Entre o que você diz e o que você sustenta quando ninguém está te aplaudindo.

Acho importante deixar claro que sustentar-se no mundo não é sobre dinheiro. Uma pessoa pode ganhar dinheiro, pagar contas, manter um padrão de vida e ainda assim não ter firmeza. Dinheiro permite funcionar no mundo, mas não garante coerência interna. É possível se sustentar financeiramente e, ainda assim, não cumprir o que promete, depender do outro para se organizar emocionalmente, evitar consequências ou viver compensando a própria falta de eixo. Sustentação, no sentido mais profundo, não é quanto você ganha. É o quanto você consegue se manter íntegra diante das suas escolhas.

Firmeza não é dureza. É coerência. É parar de resolver pelo outro, de dar desculpas, de justificar o que não se sustenta, de ocupar lugares que não são seus. Firmeza é cumprir o que se promete, mesmo quando isso custa aprovação, mesmo quando gera desconforto, mesmo quando algumas pessoas se afastam. Quando pensamento, palavra e ação se alinham, algo muda. O mundo responde diferente.

Organizar a própria casa interna não significa ter a vida toda resolvida. Ninguém tem. Significa saber o que é essencial para si, reconhecer o que ainda precisa ser ajustado e estar disposto a cuidar disso, sem usar a vida do outro como distração. Quando a própria casa não está minimamente organizada, é comum sair dela para tentar organizar a casa do outro. Conversar sobre a bagunça, resolver, opinar, ajudar. Isso não organiza nenhuma vida. Apenas evita voltar para a própria. E, sem base, a gente se perde facilmente na bagunça alheia.

Existe um preço em parar de se abandonar para sustentar vínculos que já não fazem sentido. Algumas pessoas se frustram, se afastam, dizem que você mudou, sentem-se abandonadas. Isso faz parte. Quando você para de se adaptar, de se explicar, de permanecer onde já não há afinidade, o campo ao redor se reorganiza, e, junto com ele, você também.

Há momentos em que esse movimento produz isolamento. Não como punição, mas como diz Clarissa, como uma dádiva. Um período como um tempo necessário, em que a vida afasta o barulho externo para que a alma possa ser reencontrada. É ali que a persistência é testada, não importa o que aconteça fora. É ali que se aprende a permanecer sem aplauso. É ali que o vínculo deixa de ser com a expectativa do outro e passa a ser com a própria alma.

Autoestima madura não é evitar essas consequências. É atravessá-las sem voltar atrás. Com o tempo, algo muda. Você deixa de ser procurada por necessidade e passa a atrair por afinidade. Não porque endureceu ou ficou fria, mas porque se sustentou.

Autoestima não é conforto constante, nem afirmação vazia. É não se abandonar quando custa.
Firmeza é cumprir o que se promete, primeiramente para si mesma. É sobre não se trair.
O resto é consequência.

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