Você não precisa de permissão para criar. Mas vai precisar enfrentar tudo que vai tentar te impedir

Quando eu era criança, eu adorava escrever histórias e desenhar. Não porque alguém me incentivou. Não porque fui elogiada. Pelo contrário: o que eu recebia era correção. Uma observação aqui, um ajuste ali, uma forma sutil e constante de me dizer que o que eu fazia não estava certo. E fui crescendo com uma sensação que levei anos para nomear: a de que eu não sabia fazer as coisas que eu amava.

Mas nunca parei.

Meu quarto era uma bagunça enorme de folhas de papel e cadernos espalhados por todos os cantos. Escritos que eu não mostrava a ninguém. Não porque fossem ruins. Eram meus. E havia algo naquele ato de escrever para ninguém, de criar sem destino, que sustentava alguma coisa em mim que eu não conseguia sustentar de nenhuma outra forma.

Steven Pressfield chama de Resistência a força que aparece sempre que estamos prestes a criar algo verdadeiro. Em A Guerra da Arte, ele descreve essa força como quase viva, inteligente, que sabe exatamente onde te machucar. Ela não aparece quando você está fazendo algo que não importa. Ela aparece precisamente quando você está prestes a ser honesta consigo mesma. E quanto maior a Resistência que você sente em relação a algo, mais esse algo te pertence.

O que ninguém te conta é que a Resistência não vem só de dentro. Ela também aprende a falar com a voz de quem você ama. Com a correção de quem queria te ajudar. Com o silêncio de quem nunca disse que era bom. E quando você cresce ouvindo isso, a Resistência não precisa mais de ninguém para fazer seu trabalho. Você passa a fazê-lo por ela.

Foi somente depois dos meus trinta anos, em terapia, que recebi uma tarefa simples e assustadora: me expressar através de um blog. Fiz. Achando que tudo era bem ruim. Sem saber se alguém ia ler, sem saber se valia alguma coisa. E foi a partir daí que algo começou a se mover. Alguns dos meus escritos foram parar em letras de músicas da banda que tive ao lado de duas amigas. E foi assim que a música entrou, a fotografia, o design, não como carreiras, não como estratégias, mas como ferramentas de expressão. Formas de dizer o que eu precisava dizer com o corpo inteiro, não só com as palavras.

Nunca abandonei a filosofia nem a espiritualidade. Nunca consegui largar a necessidade de refletir sobre o mundo, de buscar sentido nas coisas, de habitar as perguntas sem pressa de encontrar respostas. Isso sempre esteve lá, desde a criança que ficava olhando para as nuvens. Não é uma escolha. É uma constituição minha, algo que não consigo mudar.

E mesmo quando veio um certo sucesso, jamais me senti verdadeiramente confiante em relação ao que gosto de fazer. É sempre uma batalha trazer minhas coisas ao mundo. Sempre. Não importa quantas vezes eu tenha feito isso antes. A Resistência volta. Muda de roupa, muda de argumento, mas volta.

Hoje ela tem um endereço novo: as redes sociais. Que a bem da verdade deixaram de ser sociais e se tornaram comerciais. Onde a comparação não é um efeito colateral, é o produto. E onde criar sem querer vender, expressar sem querer converter, existir sem querer crescer, virou quase um ato subversivo.

Eu não quero transformar tudo o que amo em comércio. E manter essa posição, nos tempos de hoje, também é um ato de resistência. Talvez seja o mais difícil de todos, porque esse não vem de fora com correções e silêncios. Esse vem com métricas, com comparações, com a pergunta constante de por que você não está crescendo mais rápido, monetizando melhor, sendo mais estratégica.

Aprendi que valor não é o que o seu trabalho gera. Valor é o que você carrega antes de qualquer resultado. E criar sem precisar de aprovação não é arrogância. É o único jeito de criar algo verdadeiro. Quando você cria para ser aprovada, você está criando para outra pessoa. Quando você cria para se expressar, está criando para você. E é exatamente aí que o que você faz começa a tocar as outras pessoas de verdade, porque elas reconhecem quando algo foi feito com liberdade e quando foi feito com medo.

Nada daquilo rendeu de imediato. O quarto cheio de cadernos, a banda, o blog que eu achava ruim, a fotografia, o design, a filosofia. Mas era meu. Eu precisava. E sem isso eu viveria pela metade.

A auto expressão sustenta algo que nenhuma aprovação consegue sustentar: a sensação de que você está inteira. De que não deixou nada represado. De que viveu por dentro com a mesma intensidade com que viveu por fora.

Não é fácil. Nunca foi. Mas ficar sem fazer também não dá. E quem já sentiu isso sabe exatamente do que estou falando.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *