Sua mente obedece. O problema é que você não sabe o que está mandando ela fazer.

Nossa mente automática é como um GPS: ela te leva exatamente para onde você mandou, mesmo que o destino seja errado.

Ela não decide o que é certo ou errado, saudável ou adoecedor, e não tem nenhuma opinião sobre as suas escolhas. O trabalho dela é simples e absoluto: te manter viva e te afastar da dor. E a única forma que ela encontrou de fazer isso foi ouvindo o que você diz a si mesma, inclusive o que você não diz para mais ninguém.

Nossa mente trabalha para garantir que tenhamos uma vida longa identificando o que nos causa dor e nos mantendo longe disso. Se você tomou um choque na tomada, vai manter o dedo longe dela. Se foi mordida por um cachorro aos três anos, pode ter medo de cachorros pelo resto da vida. Mas conheço pessoas que consomem laticínios ou que bebem álcool e que passam mal, têm enxaquecas, problemas gástricos e intestinais, indisposição e cansaço, e continuam porque o diálogo interno delas com aquilo é de amor e prazer, não de dor. E é exatamente isso que explica tudo: sua mente não te afasta do que te faz mal, ela te afasta do que você diz que te faz mal. Se você continua dizendo que ama aquilo, ela vai continuar te aproximando.

Se você vai todos os dias para a academia e fala para si mesma que odeia aquilo, que está te matando, que é um pesadelo, sua mente ouve e faz o que sempre faz: te protege. Vai te dar uma enxaqueca, uma dor de estômago, uma crise de rinite, um cansaço inexplicável, vai criar qualquer manifestação física para te manter longe do que entendeu que te faz mal. Fazemos isso com absolutamente tudo. Dizemos que vamos começar a gravar vídeos, que vamos finalmente publicar nossos textos, criar o negócio que sempre quisemos, mas lá no fundo dizemos para nós mesmas que não vai dar certo, que foi uma péssima ideia, que vai ser terrível, e aí nos perguntamos por que acordamos sem energia, por que adoecemos na véspera, por que sempre encontramos um motivo para adiar.

A mente automática não te julga e não tem opinião sobre o que é certo ou errado. Ela só ouve o que você diz pra si mesma e executa. Não estou falando de pensamento positivo nem de autosugestão. Estou falando de algo que a neurociência já confirmou: padrões repetidos de pensamento reconfiguram o cérebro. Você literalmente se torna o que repete.

Quando falo sobre isso para as pessoas, o que mais escuto é que é ótimo saber disso, mas que elas não conseguem mudar ou que não têm força de vontade, que isso não é para elas, que eu sou um ET por ter mudado tantos hábitos. É óbvio que eu acho muitas coisas gostosas, mas sei que me fazem mal e me roubam o prazer de outras coisas que hoje vejo como muito mais importantes para mim. O que me chama atenção é que a maioria de nós não percebe que são exatamente essas frases que dizemos a nós mesmas que estão construindo quem somos, eu mesma demorei anos para entender isso. Nosso corpo age da forma como pensamos, não por magia ou pensamento positivo, mas porque nossa mente obedece ao que dizemos, e quando você repete por anos que não consegue, ela vai garantir que você continue não conseguindo.

E isso não se limita ao corpo ou aos hábitos. Se você carrega a crença de que as pessoas não gostam de você, sua mente vai trabalhar para confirmar isso também. Vai te fazer interpretar um silêncio como rejeição, um olhar neutro como julgamento, uma ausência como abandono. Se você passou anos ao lado de uma pessoa que te fez acreditar que nunca ia conseguir viver sozinha, você acredita nisso e passa a viver uma vida pela metade, sem saber que decisões tomaria se acreditasse que é uma pessoa inteira. Não porque seja verdade, mas porque sua mente está fazendo o que sempre faz: te protegendo de uma dor que você mesma disse que existia. Ela não verifica se a crença é real. Ela só executa.

Pensa em algo concreto: se você diz para si mesma num restaurante que pizza é a melhor coisa do mundo e que chocolate é tão bom quanto um orgasmo, o que você acha que vai acontecer quando abrir o cardápio? Seu cérebro vai te lembrar que você ama pizza, que você ama chocolate, que é isso que te faz feliz. E aí você decide que vai pedir uma opção mais equilibrada, e seu cérebro vai questionar por que você quer isso, já que não se lembra de nenhuma vez na vida em que você disse amar se sentir leve ou comer legumes. E se você pede a opção mais saudável, come sem prazer, sonha com o que deixou para trás e sente culpa quando comete qualquer deslize.

O jeito diferente não é se proibir. É olhar para o cardápio e pensar que eles têm pizza, mas que o que você gosta mais do que pizza é se sentir bem consigo mesma, acordar leve, saber que está se cuidando, que está se aproximando do corpo que gostaria de ter. Não é sobre nunca mais comer o que você ama, é sobre parar de desejar todos os dias aquilo que você sabe que está te impedindo de ficar bem consigo mesma. Quando você diz à sua mente que escolhe, que prefere, que quer algo porque te faz feliz, ela entende e trabalha a seu favor, porque o que sempre a guiou foi te aproximar do prazer.

Isso vale para tudo. Para quem quer ter um negócio mas só fala mal do trabalho e como gostaria de estar em outro lugar. Para quem quer estudar mas só diz que estudar é cansativo e chato. Para quem quer se expor mas carrega há anos a crença de que nunca mais vai falar em público porque passou por algo constrangedor uma vez e disse a si mesma que jamais repetiria aquilo, e desde então sua mente tem feito seu melhor trabalho te mantendo longe dessa situação. Atualizamos nossos celulares e computadores com frequência, mas raramente atualizamos a forma como pensamos, e às vezes nossa mentalidade está completamente obsoleta enquanto continuamos esperando resultados diferentes com a mesma estrutura mental de décadas atrás.

Foi prestando atenção nisso que tudo começou a mudar para mim. Hoje malhar e cuidar do que como é algo que genuinamente amo, não porque me forcei, mas porque mudei o que dizia sobre isso. Agora estou num processo de aprender a fazer o mesmo com o meu trabalho, porque entender alguma coisa não significa que já se aplica em todas as áreas da vida ao mesmo tempo. A comunicação mais importante que existe é a comunicação consigo mesma, e quando entendi isso, parei de lutar contra a própria mente e comecei a usá-la a meu favor. O único trabalho real que encontrei foi dizer à minha mente o que eu amo, repetir, avaliar se é o que quero mesmo e deixar que ela faça o resto.

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