Durante muito tempo, eu achei que a disciplina não era para mim. Não porque eu não quisesse, mas porque tudo o que eu associava a essa palavra parecia incompatível com quem eu era. Eu era sensível, intensa, criativa. Disciplina, para mim, significava rigidez, controle, anulação. Algo impossível de sustentar sem me trair.
Na prática, o que existia não era liberdade, mas falta de sustentação. Eu começava as coisas muito empolgada, seguia até ficar exausta e, quando o cansaço chegava, o que eu estava fazendo perdia o sentido. Eu já não sabia mais por que tinha começado e desistia. Eu sentia muito, pensava muito, reagia muito e, ao mesmo tempo, não conseguia sustentar projetos. Faltavam ritmo, previsibilidade e um corpo minimamente regulado que desse suporte ao que eu sentia por dentro e aos planos que fazia para mim.
A vida interior existia, mas não tinha chão. E sem chão, a intensidade virava excesso. O problema nunca foi sentir demais. Foi viver sem estrutura suficiente para sustentar o que eu sentia. Hoje eu sei: aquilo que eu chamava de falta de natureza disciplinada era, na verdade, ausência de base. Não faltava vontade. Faltava disciplina no sentido mais simples e menos heroico da palavra: a capacidade de continuar sem me violentar.
Por muitos anos, vivi entre extremos. Períodos de muita energia seguidos de colapsos. Trabalho até adoecer, depois retração. Busca por prazer, estímulos, relações, e depois vazio. Durante muito tempo confundi esse movimento com liberdade. Eu me achava especial por estar sempre “voltando do fundo do poço renovada”, até entender que isso não era força, era falta de base.
Com o tempo, ficou claro que sem rotina a vida interior não se sustenta. Ela vira ideia, fantasia, desejo, mas não se transforma em realidade. Ao mesmo tempo, também percebi o outro extremo: quando não há vida interior, a rotina vira uma tentativa de controle, uma lista de tarefas usada como muleta para não entrar em contato com o que está desorganizado por dentro.
Eu vivi os dois lados. E foi aí que algo começou a se organizar. Entendi que uma coisa precisa sustentar a outra. A rotina não veio para me controlar. Veio para me dar chão. A vida interior não veio para me salvar. Veio para me guiar. Quando as duas caminham juntas, a sensibilidade deixa de ser um risco e passa a ser uma inteligência.
Eu não precisei me tornar menos sensível. Precisei me tornar mais estruturada. Dormir melhor, comer bem, reduzir estímulos que me tiravam de mim, criar rituais simples que me devolvessem ao corpo todos os dias. Nada disso apagou quem eu era. Pelo contrário. Foi a primeira vez que consegui sustentar uma vida com continuidade, sem depender de picos, colapsos ou muletas emocionais.
A estabilidade não anulou a minha profundidade. Ela permitiu que ela existisse na vida real. Sustentação, para mim, é isso: o encontro entre dentro e fora. Não existe vida interior separada da forma como você dorme, come, trabalha e descansa. E não existe rotina saudável que ignore o que está vivo por dentro.
Este blog nasce dessa compreensão prática. Não de fórmulas, nem de promessas rápidas, nem de discursos prontos. Nasce da experiência real de quem precisou aprender, passo a passo, a sustentar o que sente sem se perder de si.
Sensibilidade não é fragilidade. Fragilidade é viver sem base.
Sustentar a própria vida é um gesto silencioso.
E profundamente transformador.




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